Após enchentes, educação do RS mira futuro e desafia próximos gestores A pergunta que passou a orientar gestores escolares no Vale do Taquari após as enchentes de 2024 foi direta: qual é o lugar mais seguro para alunos e professores? A resposta tem levado escolas públicas a adotarem planos de contingência, treinamentos e adaptações estruturais para enfrentar eventos climáticos extremos que se tornaram mais frequentes no estado.
Na Escola Estadual Souza Doca, em Muçum, uma das instituições atingidas pela enchente, estudantes e profissionais participam de treinamentos para situações de emergência. O plano prevê rotas de saída, definição de responsáveis pela condução das turmas e locais seguros para abrigar a comunidade escolar. 📲 Acesse o canal do g1 RS no WhatsApp Segundo a diretora Karina Baronio Cucioli, a preparação busca tornar a escola mais resiliente diante de novos episódios climáticos.
As enchentes de 2024 atingiram milhares de instituições de ensino gaúchas. Embora muitas já tenham retomado as atividades, algumas ainda operam em espaços provisórios. É o caso da Escola Municipal Léo Joas, em Estrela.
Os cerca de 500 alunos seguem estudando em outra unidade enquanto um novo prédio é construído em uma área livre de risco. A reconstrução foi uma demanda da própria comunidade. Para famílias do bairro, o novo prédio representa segurança e a expectativa de retomada da rotina escolar.
Reconstrução com foco em resiliência Em Porto Alegre, iniciativas da sociedade civil também contribuíram para a recuperação das escolas. O Instituto Cultural Floresta assumiu a reconstrução de três instituições públicas da capital. Uma das obras ocorre na Escola Municipal de Educação Infantil Miguel Granato Velasquez, no bairro Sarandi, uma das áreas mais afetadas pelas enchentes.
O projeto prevê a construção de um anexo elevado acima da cota alcançada pela água em 2024. De acordo com o presidente do Instituto Cultural Floresta, Claudio Goldsztein, a estrutura foi planejada para funcionar como espaço de apoio à comunidade em eventuais emergências futuras. Quando concluída, a ampliação permitirá dobrar a capacidade de atendimento da escola para crianças de zero a cinco anos em tempo integral.
Goldsztein também defende maior participação de parcerias entre poder público e iniciativa privada na ampliação da oferta educacional, especialmente na educação infantil. Calor extremo amplia preocupação Os desafios, porém, não se limitam às enchentes. Em fevereiro de 2025, sucessivas ondas de calor provocaram suspensão de aulas em diversas escolas da rede pública gaúcha.
Em muitas instituições, faltavam equipamentos de climatização. Em outras, a infraestrutura elétrica não suportava o funcionamento simultâneo de ventiladores e aparelhos de ar-condicionado. Para o pedagogo William Fernando de Oliveira, a adaptação das escolas às mudanças climáticas exige investimentos em infraestrutura sustentável.
Entre as alternativas apontadas estão ampliação da arborização, criação de áreas sombreadas e adoção de telhados verdes. "A gente precisa plantar, a gente precisa de árvores, a gente precisa de ambientes acolhedores, telhados verdes. Os poderes executivos, seja municipal ou estadual, precisam pensar nessa infraestrutura." Alfabetização ainda preocupa Além dos impactos sobre a estrutura física das escolas, os eventos extremos também afetam a aprendizagem.
Somados aos efeitos da pandemia, os prejuízos aparecem nos indicadores educacionais. Em 2025, apenas 52% das crianças gaúchas estavam alfabetizadas na idade considerada adequada, até os oito anos. O índice representa melhora em relação aos 45% registrados em 2024, mas ainda permanece abaixo dos 63% alcançados em 2023.
O desempenho também é inferior à média nacional, de 66%, colocando o Rio Grande do Sul entre os estados com piores resultados do país. A professora da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Renata Sperrhake afirma que as dificuldades de leitura, compreensão e produção de textos continuam presentes em diversas etapas da educação básica. Segundo ela, embora o problema tenha se agravado nos últimos anos, trata-se de um desafio histórico da educação brasileira.
O gerente de Políticas Educacionais do Todos Pela Educação, Ivan Gontijo, defende a recomposição das aprendizagens como prioridade. Para ele, estudantes que não se alfabetizam na idade adequada tendem a carregar déficits educacionais ao longo de toda a trajetória escolar. "Tem duas coisas importantes: a primeira é reforçar o trabalho de recomposição das aprendizagens, especialmente porque esses alunos vão continuar dentro do sistema educacional ao longo dos próximos 10 anos, e a fase da alfabetização é crucial.
E a outra é fortalecer o regime de colaboração com os municípios, porque, ainda que o Rio Grande do Sul tenha quase um quarto de matrículas nos anos iniciais, a rede estadual, parte significativa das matrículas está nos municípios. Avanços e limitações no ensino básico Os resultados do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) mostram melhora gradual no desempenho dos estudantes gaúchos. Nos anos iniciais do ensino fundamental, a nota alcançou 6,3.
Nos anos finais, chegou a 5,4. Apesar da evolução, o crescimento é considerado lento. Em duas décadas de Ideb, o avanço médio foi de cerca de dois pontos em ambas as etapas.
No ensino médio, o estado ocupa posição de destaque no cenário nacional, figurando entre os melhores desempenhos do país. Ainda assim, a nota média de 4,7, em uma escala de zero a dez, é vista como insuficiente pelos especialistas. A taxa de aprovação também aumentou e atingiu 91% em 2025.
Entretanto, os indicadores de aprendizagem adequada seguem baixos, especialmente em matemática. Evasão escolar segue como desafio A evasão permanece entre os principais problemas da educação gaúcha. Quase 9% dos estudantes matriculados no ensino médio abandonam os estudos antes da conclusão do ano letivo, percentual cerca de três vezes superior à média nacional.
Especialistas apontam que reforço escolar, recomposição das aprendizagens e ampliação da oferta de ensino em tempo integral são medidas importantes para reduzir esse cenário. O número de matrículas no ensino médio em tempo integral cresceu significativamente nos últimos anos, passando de menos de 8 mil estudantes em 2022 para cerca de 51 mil em 2025. Mesmo assim, a modalidade atende apenas cerca de um quinto dos alunos dessa etapa.
Formação profissional e mercado de trabalho Outra preocupação é aproximar a escola do mundo do trabalho. Pesquisa realizada com alunos do terceiro ano da rede estadual mostrou que 58% afirmam ter tido pouco ou nenhum contato com experiências relacionadas ao mercado profissional durante a trajetória escolar.
Para Ecleia Conforto, gerente do Instituto Sesi de Formação de Professores, é necessário fortalecer o ensino técnico, ampliar currículos flexíveis e criar percursos formativos mais alinhados às necessidades dos jovens. A expansão da educação profissional já apresenta crescimento. As matrículas em cursos técnicos vinculados à rede estadual passaram de cerca de 36 mil em 2021 para mais de 55 mil em 2026.
Ainda assim, os números estão distantes das metas previstas pelo Plano Nacional de Educação. Falta de professores preocupa especialistas A escassez de docentes também aparece entre os desafios para os próximos anos. Estudo do Observatório Sesi da Educação estima que o Rio Grande do Sul poderá registrar déficit de aproximadamente 10 mil professores até 2040.
Para especialistas, a reversão desse quadro depende de valorização salarial, melhoria das condições de trabalho e políticas públicas capazes de atrair novos profissionais para a carreira docente. Apesar dos desafios, exemplos como o da estudante Liriel Rodrigues da Silva, de 16 anos, medalhista de bronze na Olimpíada Brasileira de Matemática, mostram o potencial da educação pública quando estrutura, investimento e acompanhamento pedagógico caminham juntos.
Para o conselheiro do Tribunal de Contas do Estado (TCE-RS), Cezar Miola, os avanços podem ocorrer em um intervalo relativamente curto, desde que haja comprometimento dos governos, participação das famílias e continuidade das políticas educacionais. Segundo ele, alfabetizar as crianças na idade certa é o primeiro passo para evitar evasão, analfabetismo funcional e desigualdades futuras. "Se aquele recurso destinado à educação for aplicado na educação, os resultados vão acontecer.
Não precisamos de uma geração, não precisamos de 30, 40, 50 anos para ver os resultados. Os resultados aparecem se houver dedicação, profissionalismo, alocação dos recursos da educação para a educação e olhar atento dos órgãos de controle", conclui Miola. A série
Grupo RBS lança série sobre desafios do RS e expectativas dos eleitores
Como o RS se prepara para a nova realidade de desastres naturais e o que indicam especialistas em prevenção Enchente de 2024 afetou a Escola Estadual Souza Doca, em Muçum André Ávila/Agência RBS VÍDEOS: Tudo sobre o RS



