Câmera de segurança registra momento que homem em situação de rua foi incendiado em live A Justiça do Rio decidiu levar a júri popular Miguel Felipe dos Santos Guimarães da Silva e Gabriel Utrini da Veiga Carvalho Silva, acusados pela tentativa de homicídio de Ludierley Satyro José, homem em situação de rua que foi atacado com coquetéis molotov enquanto dormia em uma calçada na Zona Oeste do Rio. O crime aconteceu em fevereiro de 2025, no Pechincha, em Jacarepaguá, e foi transmitido em tempo real pelo Discord.
Ludierley sofreu queimaduras de terceiro grau em 60% do corpo. Na mesma decisão que determinou que os dois sejam submetidos ao Tribunal do Júri, a Justiça manteve as prisões preventivas dos réus. Ao justificar a manutenção das prisões, a decisão destacou a gravidade do caso e a repercussão provocada pela transmissão do ataque pela internet.
"Os crimes descritos na denúncia e imputados aos acusados são de extrema gravidade e geraram, na Cidade do Rio de Janeiro e, quiçá, em todo o País, grande repercussão. A transmissão, em tempo real, do crime fez com que ele chegasse ao conhecimento de muitos", diz um trecho. A Justiça também considerou que a soltura poderia causar sensação de impunidade e estimular ataques semelhantes.
"A liberdade dos acusados pode repercutir negativamente na Cidade e no País, gerando a sensação de impunidade, despertando a possibilidade de que novos atos deste tipo venham a ser praticados, ao vivo e por meio de rede social, atacando pessoas que estão em situação de rua e de vulnerabilidade", afirma a decisão. ele conversou com exclusividade com o g1 (vídeo abaixo).
‘Só escutei o barulho e senti todo o meu corpo queimando’, lembra homem em situação de rua As cenas do ataque foram transmitidas ao vivo pelo Discord, u Miguel Felipe dos Santos Guimarães da Silva Reprodução As investigações iniciais indicam que o ataque foi motivado por um desafio.
"Ele seria movido por um desafio de se vangloriar perante os outros participantes [da rede social], e ele teria recebido um valor em torno de R$ 2 mil por um indivíduo ainda não identificado”, disse o delegado Cristiano Maia, responsável pelo caso. “Poucas vezes eu vi um detido com tamanha frieza e crueldade porque a vítima, o morador de rua, estava dormindo, e [o ataque foi] sem motivo algum, dois indivíduos, apenas pra mostrar que são capazes de fazer essa barbaridade, fazem", afirmou o delegado.
"A mente dessa pessoa não é uma mente boa. Com certeza ela tem estudo, uma casa boa, vive bem e entrou nessa não sei como. Para fazer isso, a pessoa precisa ter uma mente ruim.
Eu sinto muita tristeza. Ele poderia estar assistindo à televisão, comendo uma pizza, tomando uma Coca-Cola, e a pessoa ir para tirar uma vida, por causa de um prêmio? Mil reais?
Não compensa", disse Maia. Tratamento doloroso Ludierley precisa passar por um procedimento chamado balneoterapia — que é a raspagem da pele queimada. Para isso, os médicos precisam sedá-lo.
Esse procedimento é diário e doloroso. "Eu não desejo isso nem para o meu pior inimigo. É muita dor", afirmou o homem.
O cirurgião plástico Éder Nogueira Teixeira Tavares explicou que o caso de Ludierley é grave, mas estável. "A parte posterior [do corpo] está praticamente toda queimada. Todo dia fazemos a balneoterapia.
Pegamos o paciente, ele é sedado para não ter dor. Então, o ferimento é limpo com um sabonete específico e a gente faz a raspagem com um bisturi", disse. "Em seguida, passamos o sulfadiazina de prata que não deixa as bactérias crescerem no corpo", acrescenta.
Segundo o especialista, Ludierley não tem previsão de alta. De MG para o Rio em busca de vida melhor Mineiro de Juiz de Fora e criado em Ubá, Ludierley Satyro viajou ao Rio há mais de 10 anos, em busca de uma vida melhor. Acabou se envolvendo com drogas e foi viver na rua.
Durante uma tentativa de recuperação, conheceu a companheira em um centro de reabilitação. Namoraram, casaram-se e tiveram um filho. Emocionando, ele contou como tudo aconteceu.
"Eu resolvi ir para um centro de recuperação e um rapaz me apresentou a Cidade de Deus e fui [para o tratamento]. Como eu estava sem documentos, eu fui a um projeto para tirá-los. Lá estava uma magrinha baixinha de óculos.
Eu sempre falei que eu não iria me apaixonar, abrir o meu coração. Mas, ali, foi amor à primeira vista. Missionária Beatriz é o nome dela.
Começamos a conversar por telefone. Em seguida, surgiu o noivado e o casamento. Nos casamos no campo do Madureira, foi um belo casamento.
Deus me abençoou. Um rapaz que vivia na rua ter uma excelente esposa e um filho de 7 anos." No entanto, em pouco menos de dois anos, o homem voltou a usar drogas e a viver na rua. Agora, o sonho é deixar o hospital e tentar se afastar do vício.
"Quero ter uma vida digna, largar essa maldita droga que só come dinheiro. Quero voltar a trabalhar, andar bonito, voltar aos meus 72 quilos. Se eu pudesse, voltaria a ser criança.
Quero pegar o meu filho, sentar no campo, sentar com ele em um cavalo. Eu quero comprar um cavalo para ele." Questionado sobre o que pensa de seus agressores, ele disse o seguinte: "A vida nos ensina muita coisa. O que se planta, se colhe.
É o círculo da vida. Se planta o bem, colhe o bem. É da natureza: plantou, vai colher.
Se planta o mal, colhe o mal."



