Bloco do Reggae no circuito Vem Pro Mar, em São Luís Pink de Cássia Em São Luís, o reggae ganhou um jeito próprio: dança agarradinha, músicas com apelidos e festas que reúnem multidões ao som de grandes radiolas. Essa ligação com o gênero jamaicano tornou a capital do Maranhão, que completa 414 anos nesta terça-feira (8), conhecida como a “Jamaica Brasileira”. Desde 2023, a cidade também tem o título oficial de Capital Nacional do Reggae.
O reconhecimento veio quase cinco décadas depois de o ritmo conquistar os salões de festas e se tornar parte da identidade local. ✅ Clique aqui para seguir o novo canal do g1 Maranhão no WhatsApp Segundo Karla Freire, especialista em Jornalismo Cultural e mestra em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA), essa história começou nos salões de festas dos bairros populares.
No fim dos anos 1970, discos de reggae passaram a fazer parte do repertório das danceterias e conquistaram sobretudo jovens negros das periferias. Nos anos 1980, as festas e os programas de rádio especializados ampliaram a divulgação do gênero. A expressão “Jamaica Brasileira” ganhou força nesse circuito e passou a traduzir a presença da música jamaicana na vida da cidade.
O público também imprimiu seus costumes ao novo som. Os casais dançavam “agarradinhos”, e as gravações ganharam apelidos, os famosos “melôs”. Nas radiolas, sistemas com grandes conjuntos de caixas de som, a disputa por músicas exclusivas levou proprietários a esconder até os nomes impressos nos discos.
Em 2020, o projeto de lei que propôs o título de Capital Nacional do Reggae para São Luís citava, em sua justificativa, a existência de mais de 200 radiolas na cidade. A seguir, nesta reportagem, você vai ver: De onde veio o nome ‘Jamaica Brasileira’? Antes de ser reggae, era ‘música estrangeira lenta’ Por que se dança agarradinho?
As radiolas e os discos com selos raspados Os ‘melôs’: músicas que ganharam outros nomes Do preconceito ao título de Capital Nacional do Reggae De onde veio o nome ‘Jamaica Brasileira’? Uma memória sobre o surgimento da expressão aparece em um depoimento de Fauzi Beydoun, cantor da banda Tribo de Jah e comunicador, à pesquisadora Maria do Carmo Lima Morais. A entrevista integra o artigo “A invenção da expressão ‘Jamaica Brasileira’”, publicado em 2008 na revista Cambiassu, da UFMA.
Surgiu espontaneamente no programa e acabou se tornando um termo usual. Isso foi lá pelo ano de 86 ou 87. O termo surgiu da constatação da "confluência cultural" que o reggae proporcionou no Maranhão: uma cultura típica da Jamaica adotada de forma genuína e única pelos brasileiro-maranhenses.
Para Fauzi, a comparação nasceu das afinidades que percebia entre os clubes locais e a Jamaica, da presença da cultura negra e da maneira como os maranhenses adotaram o gênero. Na análise de Maria do Carmo, os meios de comunicação tiveram papel central na divulgação dessa imagem da cidade. O apelido também provocou resistência.
Segundo o antropólogo e professor da UFMA, Carlos Benedito Rodrigues da Silva, parte da elite rejeitou a associação com a Jamaica, enquanto valorizava o nome “Atenas Brasileira”, ligado à tradição literária de São Luís. “A Atenas brasileira é algo que remete à Europa e ser a Jamaica brasileira é algo que remete à África. E não agradou a elite”, afirmou.
Antes de ser reggae, era ‘música estrangeira lenta’ Há diferentes relatos sobre como os primeiros discos de reggae chegaram ao Maranhão. Karla Freire reúne versões sobre marinheiros que teriam trazido vinis e os trocado por comida e bebida. Outra explicação destaca a circulação de discos vindos do Pará e o papel do DJ José Ribamar da Conceição Macedo, o Riba Macedo.
Segundo a pesquisadora, donos de radiolas reconhecem Riba como um dos pioneiros na divulgação do gênero. Ele teria conhecido o vendedor Carlos Santos, que passou a levar discos de reggae para seu repertório. LEIA TAMBÉM: Dia Nacional do Reggae: das origens jamaicanas ao reconhecimento cultural, no Maranhão Nos salões dos anos 1970, os discotecários inseriam aquelas músicas entre sequências de outros ritmos.
Antes de conhecer o nome do gênero, parte do público o chamava até de “música estrangeira lenta”. Além disso, a identificação não dependia apenas da compreensão das letras. Para Karla, a juventude negra incorporou o reggae também ao comportamento e à maneira de se vestir.
“A juventude negra se identifica com o ritmo e passa a adotar o reggae como um ritmo seu; um ritmo que, apesar de ser em língua estrangeira, em inglês, em que praticamente não se entendiam as letras, havia um sentimento de pertencimento”, explicou. Por que se dança agarradinho? Estilo de dançar reggae "agarradinho" vira Patrimônio Imaterial do Maranhão Segundo a pesquisadora, o jeito agarradinho de dançar tem relação com o que o público já fazia nas festas.
Nos salões, os maranhenses incorporaram à música jamaicana os movimentos e a proximidade que conheciam de outros ritmos. “Como o reggae apareceu nessa época em que predominavam as festas nas quais tocavam a lambada, o forró, o merengue e o bolero, e esses ritmos são dançados a dois, as pessoas continuaram dançando a dois, quando tocava o reggae". "Então, o reggae era a música estrangeira lenta que tocava, e as pessoas continuavam no salão, abraçadas, dançando”, explicou Karla Freire.
A dança em dupla, então, se tornou uma das marcas da cultura regueira maranhense. Em 2021, o governo do Maranhão reconheceu o jeito “agarradinho” de dançar reggae como Patrimônio Cultural Imaterial do estado. As radiolas e os discos com selos raspados Radiola Freedom FM, do Maranhão Divulgação Originalmente, a radiola reunia rádio e vitrola em um só aparelho.
No Maranhão, com a popularização do reggae, o equipamento ganhou caixas de som para ampliar sua potência e embalar as festas. As radiolas se tornaram tão populares que seus proprietários passaram a disputar tanto a potência do som quanto a variedade de músicas exclusivas. Por isso, uma música que nenhuma radiola concorrente tocava podia ser um motivo para escolher determinada festa.
“Os donos das radiolas iam para a Jamaica comprar os discos e raspavam os selos. Então aquela música se tornava uma exclusividade daquela radiola”, explicou Carlos Benedito. Ter uma gravação exclusiva era uma forma de atrair o público e se destacar entre as radiolas.
Sem o nome dos cantores e das gravadoras nos discos, ficava mais difícil identificar as músicas. Assim, as radiolas ajudaram a consolidar o reggae nos clubes e salões populares. À frente da seleção musical, os DJs apresentavam e comentavam as músicas, davam recados, conversavam com o público e divulgavam outras festas.
📻 Com os programas especializados, o rádio ampliou essa conexão entre os clubes, as radiolas e seus públicos. Além de ouvir as canções, os regueiros acompanhavam a divulgação dos eventos e as novidades do circuito. Radiola Estrela do Som Arquivo/ O Estado do Maranhão Os ‘melôs’: músicas que ganharam outros nomes A linguagem dos regueiros também ganhou características próprias.
Uma gravação podia se tornar conhecida por um nome bem diferente daquele impresso no disco. Em seu estudo sobre a trajetória do gênero em São Luís, Karla Freire explica que DJs e apresentadores criaram apelidos locais para músicas cantadas em inglês. Muitas vezes, a inspiração vinha de um trecho que soava parecido com alguma palavra em português.
Foi o que aconteceu com “White Witch”, de Andrea True Connection, conhecida como “melô do caranguejo”. O apelido surgiu porque um trecho do refrão em inglês soava para os regueiros como “olha o caranguejo” (ouça abaixo). Assim, o melô funcionava como uma referência compartilhada entre o público, pois ajudava a reconhecer e pedir uma música sem precisar saber seu título original.
Já expressões como “pedra” e “pedrada” passaram a identificar canções que empolgavam o público. Do preconceito ao título de Capital Nacional do Reggae Museu do Reggae comemora quatro anos nesta terça-feira (18) Divulgação/Governo do Maranhão A popularidade do reggae não impediu que suas festas e seus frequentadores sofressem preconceito social e racial. Ao analisar jornais antigos, Karla Freire identificou uma cobertura frequentemente associada a ocorrências policiais.
Os espaços de lazer da população negra e pobre apareciam pouco como ambientes de cultura. “O reggae é um ritmo que dominou, primeiro, as periferias. Especialmente um público jovem, negro e pobre.
O primeiro desafio já foi esse: enfrentar o preconceito racial que envolve o ritmo, na cidade". "Entre as décadas de 1980 para 1990, o gênero cresceu absurdamente; foram as décadas de ouro, como os mais antigos chamam, quando o reggae realmente se estabelece de uma forma forte, e passa a ser parte da cultura de uma grande parcela da população e parte da cultura da cidade, como instrumento de lazer”, avaliou Karla Freire.
A partir dos anos 1990, segundo Karla, a presença de universitários, artistas e integrantes da classe média em locais como o Espaço Aberto ajudou a diversificar o público. Entre o fim daquela década e o início dos anos 2000, a cobertura jornalística também passou a dar mais atenção à dimensão cultural do movimento. Esse reconhecimento ganhou outros marcos.
Em 2018, a cidade recebeu o Museu do Reggae Maranhão, que homenageia Bob Marley e bandas brasileiras como a Tribo de Jah. O acervo reúne discos raros, vídeos, fotografias históricas e registros da moda regueira ao longo do tempo. O espaço foi inaugurado como o segundo museu dedicado ao gênero no mundo e o primeiro fora da Jamaica.



