Do acesso à água à recuperação dos igarapés: o passado e o futuro do saneamento em Manaus Manaus cresceu cercada por rios e igarapés, mas garantir saneamento básico à população é um desafio que atravessa gerações. Ao longo de mais de um século, diferentes empresas e projetos tentaram ampliar o acesso à água e estruturar a coleta de esgoto na capital amazonense.

O avanço dos últimos anos fez Manaus conseguir, em 2026, atender mais de 99% da população com água tratada, mas o futuro ainda é cercado por obstáculos para ampliar o tratamento de efluentes e criar condições para que os cursos d’água voltem a fazer parte da vida da população. A trajetória passa pelas primeiras iniciativas de abastecimento, pelos projetos de redes de esgoto do início do século XX e pela expansão urbana que transformou a cidade.

Também chega às soluções desenvolvidas em becos e palafitas, onde instalar tubulações exige adaptações à geografia e ao modo de vida dos moradores. 📲 Participe do canal do g1 AM no WhatsApp Quando a gente discute saneamento básico, a gente discute, na verdade, a cidade que a gente quer. Confira abaixo o passado, o presente e o futuro do saneamento básico em Manaus Uma história que começou há mais de um século As discussões sobre abastecimento de água e esgotamento sanitário em Manaus remontam ao século XIX.

Conforme o histórico reunido no livro História do Saneamento de Manaus, publicado pela Companhia de Saneamento do Amazonas (Cosama) em 1991, a região conhecida como Cachoeira Grande, na divisa dos bairros São Jorge e São Geraldo, foi escolhida, em 1889, para abastecer a cidade. Naquele período, os igarapés também faziam parte da rotina dos moradores, que recorriam a esses cursos d’água para atividades cotidianas, como buscar água, lavar roupas e tomar banho.

A administradora Roberta Teixeira guarda lembranças dessa relação. Na década de 1990, os banhos e igarapés ainda estavam entre as opções de lazer das famílias manauaras. Ela conta que costumava frequentar locais como a Ponta da Bolívia e o Tarumã.

Moradora do bairro Praça 14 naquela época, Roberta também recorda um espaço próximo de casa onde havia várias cacimbas utilizadas por lavadeiras. O trabalho de lavar roupas para outras famílias era uma atividade comum e representava uma fonte de renda para muitas mulheres. "Por trás da nossa casa, havia um lugar com várias cacimbas, onde muitas lavadeiras trabalhavam e tiravam seu sustento lavando roupas.

Era uma prática muito comum naquela época, atendendo clientes de diferentes níveis sociais. Essas lembranças fazem parte da história e da memória afetiva de muitas famílias manauaras. Os rios, igarapés e cacimbas tinham um papel importante na vida cotidiana da população, tanto como espaços de lazer quanto como locais de trabalho e convivência", lembrou.

Com a expansão urbana e o crescimento populacional, aumentou a necessidade de organizar o abastecimento e dar destinação aos resíduos. Igarapé da Cachoeira Grande, em Manaus, no fim dos anos 80. Reprodução/História do Saneamento de Manaus Em 1906, a empresa Manaós Improvements elaborou um projeto de esgotamento sanitário para uma cidade com cerca de 60 mil habitantes.

A iniciativa previa a implantação de uma rede coletora, mas as ligações dos imóveis não foram implementadas como previsto. Com isso, o despejo de resíduos continuou a ocorrer em fossas, valas, quintais e cursos d’água. Os registros históricos também apontam que a ocupação das margens dos rios e o crescimento urbano já preocupavam especialistas no início do século passado.

Décadas depois, a expansão da cidade continuaria a exigir novas soluções para atender áreas cada vez mais distantes e densamente ocupadas. Registro de diretores da Manaós Improvements, em 1906. Reprodução/História do Saneamento de Manaus A criação da Companhia de Saneamento do Amazonas (Cosama), no fim da década de 1960, marcou outra etapa da organização do abastecimento no estado.

Estruturas como a Estação de Tratamento de Água (ETA) da Ponta do Ismael e os reservatórios foram planejados para atender uma população muito menor do que a que Manaus viria a concentrar anos depois. O crescimento urbano transformou a escala do desafio. Levar água e esgoto à população passou a exigir não apenas ampliar a infraestrutura, mas também adaptar os sistemas às características da capital amazonense.

Veja o antes e depois da Estação de Tratamento de Água (ETA) da Ponta do Ismael, em Manaus, nos anos 90 e nos dias atuais. Initial plugin text Ao recordar a juventude em Manaus, o historiador Aguinaldo Figueiredo lembrou que a falta de esgotamento sanitário fazia parte da realidade do bairro onde vivia e de outras áreas próximas. Sem uma rede de coleta, as águas servidas das casas e a água da chuva eram despejadas nas ruas e nos quintais dos vizinhos, o que provocava conflitos entre moradores.

“No meu tempo histórico de Manaus, entre a década de 70 e os anos 2000, no nosso bairro, e mesmo na maioria dos bairros próximos, não tinha esgoto, as águas servidas e pluviais eram jogadas para as ruas ou para os quintais dos vizinhos, o que causava brigas constantes”, lembrou. Segundo o historiador, por causa do relevo da cidade, a água e os dejetos carregados pelas enxurradas chegavam aos igarapés que deságuam no Rio Negro.

Ele também recordou que o abastecimento de água começou a ser instalado de forma precária durante o governo de Plínio Coelho, entre 1955 e 1959, e foi ampliado posteriormente, durante os governos militares. Confira a linha do tempo do saneamento em Manaus. g1 AM Saneamento exige soluções adaptadas à realidade de Manaus Quando a Águas de Manaus assumiu a operação, em meados de 2018, a empresa informou ter encontrado cerca de 200 mil pessoas sem acesso à água tratada.

Segundo Pedro Augusto Freitas, diretor-presidente da concessionária, muitas viviam em áreas mais vulneráveis, como becos e áreas com casas de palafitas, onde a implantação da infraestrutura exige soluções específicas. Nas palafitas, por exemplo, as estruturas acompanham as variações do nível dos rios, o que exige que as tubulações também sejam adaptadas a esse movimento.

A instalação dos equipamentos de medição segue a mesma lógica: os hidrômetros são colocados em posições elevadas, próximas à entrada das casas, para facilitar a leitura e reduzir o risco de danos provocados pela subida e descida das águas. “Uma coisa que a gente aprendeu é que a nossa rede de água fica ancorada nas passarelas das palafitas. Porque, como a palafita se adapta ao nível do rio, o nosso sistema também tem que se adaptar.

Então, todo ano, quando o nível do rio sobe, as passarelas sobem e a nossa rede também sobe. Quando a água do rio desce, as passarelas descem e a nossa rede também desce”, explicou Freitas. Rede de água ancorada em passarela de palafitas, em Manaus.

Divulgação/Águas de Manaus Os desafios também aparecem na implantação de redes de esgoto. Em áreas de palafitas, a estrutura das moradias e a largura das passagens podem impedir o uso de máquinas pesadas. No Beco do Nonato, localizado no bairro Cachoeirinha, a instalação da tubulação precisou ser feita praticamente de forma manual para evitar danos às casas.

“É simbólico isso, a gente tem que mostrar que o saneamento é para todos, e que a gente tem que fazer saneamento principalmente para quem está mais exposto à falta dele. Como é uma palafita, eu não consigo usar uma retroescavadeira, por exemplo. Qualquer trabalho mecanizado que a gente fizer pode abalar a estrutura das palafitas.

Então, é um trabalho feito praticamente de forma manual”, explicou. Nesse tipo de estrutura, a rede de esgoto fica exposta sob as casas, ao invés de ser enterrada. De acordo com a concessionária, o modelo facilita a manutenção e permite executar as obras sem comprometer as moradias.

Os imóveis também são conectados à rede coletora, que leva os resíduos até a Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) Educandos. A dona de casa Ivone Dantas é moradora do Beco do Nonato há mais de 40 anos e vivenciou as transformações no igarapé que passa diante da comunidade. Ela lembra que a água, antes limpa e sem odor, foi perdendo qualidade ao longo dos anos, afetando diretamente a vida dos moradores, mas depois voltou a ser como antes, após o funcionamento do sistema de saneamento instalado no local.

“Quando cheguei aqui, a água do igarapé era transparente, não fedia. Com o passar dos anos, a sujeira tomou conta e a gente não tinha o mínimo de qualidade de vida. Hoje eu vejo que é possível voltar a ter vida nesse igarapé.

Até o cheiro melhorou”, lembrou. Beco São Vicente Divulgação/Águas de Manaus O Beco São Vicente, no bairro Redenção, concentra muitas casas de palafitas. Por lá, a implantação da rede também precisou considerar a configuração local.

A artesã Lilian Gonçalves de Moraes mora no bairro Redenção há 40 anos, participa de um projeto no Beco São Vicente e acompanhou as mudanças que a região recebeu com a implantação dos sistemas de água e esgoto. “Antes, aqui era um emaranhado de canos. Depois que chegou a água regularizada, ficou melhor e não tivemos mais problemas para ter água limpa em casa.

Agora, com a chegada do saneamento e dos tubos de esgoto, melhorou mais ainda. Diminuiu o mau cheiro e a presença de bichos", relembrou. Lilian se diz otimista quanto à possibilidade de que o sistema de saneamento implantado no local chege até outras localidades na capital amazonense, mas ressalta a importância de a população se conscientizar e fazer sua parte.

"Agora esperamos que essa estrutura também chegue aos outros becos e que as pessoas entendam a importância de se conectar para contribuir com a melhoria dos igarapés. Todos nós somos responsáveis por essa mudança, desde o uso correto da água e o descarte adequado do esgoto até o cuidado para não jogar lixo nos igarapés", frisa a moradora. Artesã Lilian Gonçalves de Moraes, mora no bairro Redenção há 40 anos, participa de um projeto no Beco São Vicente.

Divulgação/Águas de Manaus Saneamento que também leva dignidade A expansão do abastecimento, segundo a concessionária, foi acompanhada por iniciativas para aproximar o atendimento das comunidades e tornar as tarifas acessíveis. A empresa afirmou manter cadastro de cerca de mil lideranças comunitárias, que atuam como interlocutoras entre os moradores e os serviços. “Para a gente atender essas áreas, a gente tem que levar saneamento no valor que as pessoas consigam pagar.

Porque de nada adianta levar saneamento para essas áreas em uma condição que não dê acesso efetivo àquela população”, afirmou Freitas. Entre as iniciativas citadas por ele estão a Tarifa Manauara, que oferece desconto de 50% em relação à tarifa-base dentro das condições estabelecidas pelo programa, e a tarifa social de R$ 10 para água e esgoto destinada às famílias elegíveis. Moradora beneficiada com rede de esgoto, em Manaus.

Divulgação/Águas de Manaus O diretor-presidente afirmou que a cobrança também está relacionada ao consumo consciente, mas destaca um efeito social que a empresa diz ter observado durante a expansão do serviço: para algumas famílias, a conta de água passou a funcionar como o primeiro comprovante de endereço. “Uma coisa que a gente não imaginava que ia acontecer, quando a gente iniciou esse projeto, é que, para várias dessas pessoas, a nossa conta d’água foi o primeiro comprovante de endereço delas.

Isso foi um processo de visibilização daquela população que antes era invisível, que passou, portanto, a ter acesso à conta bancária, a crédito que não tinha antes.

Então, esse aspecto social do saneamento, de levar dignidade mesmo para as famílias, é que é muito importante, o que nos move a trabalhar todo dia." Tecnologia para encontrar perdas e ampliar o abastecimento Além da expansão das redes, a concessionária afirmou ter investido em tecnologia para reduzir perdas de água e melhorar o monitoramento do sistema, já olhando para o futuro. De acordo com Freitas, o índice de perdas caiu de aproximadamente 75%, em 2018, para 45% em 2026.

A redução, segundo ele, ocorreu tanto com a regularização do abastecimento em áreas onde havia tubulações improvisadas quanto com o uso de ferramentas para localizar vazamentos subterrâneos. “Se você não tem água, você vai dar um jeito de ter água, porque ninguém vive sem água. Até sem energia se vive, mas sem água não dá”, afirmou.

Para ele, regularizar o fornecimento e incluir moradores nos serviços é parte da resposta para combater ligações irregulares. A empresa também utiliza uma tecnologia de análise por satélite que, segundo Freitas, ajuda a identificar regiões com possíveis vazamentos. Ele explica que o recurso não aponta necessariamente o local exato do problema, mas reduz a área de busca das equipes.

“Ele acerta na mosca? Não. Mas ele melhora muito, numa área de Manaus, a área em que a gente procura um vazamento menor.

Então, com esse satélite, a gente consegue direcionar nossas equipes para que a gente consiga ser mais eficiente na busca daqueles vazamentos invisíveis”, diz. Centro de Operações Integradas da Águas de Manaus monitora o abastecimento da cidade. Natália Póvoas/Rede Amazônica O centro de operações da concessionária também monitora informações como pressão, vazão e consumo.

Segundo o diretor-presidente, sistemas automatizados e ferramentas de inteligência artificial ajudam a identificar alterações fora do padrão, que podem indicar vazamentos ou falhas na operação. A adaptação tecnológica, de acordo com ele, também é necessária para enfrentar os efeitos de períodos de seca mais severos. Após as vazantes de 2023 e 2024, a empresa aprofundou estruturas de captação e instalou bombas móveis para continuar retirando água do Rio Negro mesmo com o nível mais baixo.

As mudanças permitem manter a captação em condições mais severas sem comprometer o abastecimento até o limite operacional informado pela empresa. “Como a gente está falando do abastecimento da maior capital da Região Norte do Brasil, a gente sempre tem que buscar melhoria. É um trabalho de pesquisa e análise constante para que a gente possa ter certeza de que o nosso sistema vai ser à prova de mudança climática”, afirmou.

A expansão do esgoto e a meta de 2033 Apesar dos avanços no abastecimento de água, a ampliação da coleta e do tratamento de esgoto segue como um dos principais desafios do saneamento em Manaus. Segundo a Águas de Manaus, a cobertura de esgotamento sanitário era de 16% em 2018. A empresa afirma ter encerrado 2025 com cerca de 40% e informa que o índice chegou a aproximadamente 42% em 2026.

A expansão é conduzida pelo programa Trata Bem Manaus, lançado em 2024, que tem como objetivo ampliar a cobertura de esgotamento sanitário até a meta de 90% prevista no Marco Legal para 2033. O plano envolve: ampliar redes coletoras; executar ligações domiciliares; expandir a estrutura de tratamento. A geografia da cidade também influencia a escolha das tecnologias.

Segundo Freitas, a presença de igarapés, as variações de relevo e as ruas estreitas dificultam a implantação de grandes redes coletoras em determinadas regiões. Por isso, a empresa afirma adotar sistemas de tratamento menores e distribuídos em diferentes áreas, em vez de concentrar toda a operação em poucas grandes estações. Pedro Augusto Freitas, diretor-presidente da Águas de Manaus.

Natália Póvoas/Rede Amazônica O futuro dos igarapés A ampliação do esgotamento sanitário também tem relação com a perspectiva de reduzir o lançamento de resíduos sem tratamento no meio ambiente. Em uma cidade cortada por igarapés, a expansão das redes e das estações de tratamento é parte do caminho para melhorar a relação entre a urbanização e os cursos d’água. Para Freitas, a recuperação dos igarapés é um dos legados que o saneamento pode deixar para Manaus.

Ele afirma que a ampliação da coleta e do tratamento de esgoto tende a contribuir para essa transformação, embora a recuperação ambiental dependa também de outras medidas e de resultados que precisam ser acompanhados ao longo do tempo. “Na medida que a gente consegue avançar com a coleta e com o tratamento do esgoto, os igarapés naturalmente se recuperam.

Que a gente possa, sim, voltar a ter todos os balneários urbanos que a gente teve no passado, para que a gente faça efetivamente o uso desse patrimônio que é tão belo e que, infelizmente, com o crescimento da cidade, foi degradado”, afirma. O caminho para o futuro passa por ampliar a infraestrutura, conectar as residências e garantir que o esgoto coletado seja efetivamente tratado.

Também exige acompanhar os efeitos das intervenções sobre os moradores e o ambiente, para que as metas se traduzam em melhorias verificáveis. “Quando eu olho para o futuro, eu enxergo que a gente vai levar o serviço de coleta e tratamento de esgoto para toda a população da cidade. E que a gente vai devolver para o manauara os seus igarapés limpos.

O futuro do saneamento em Manaus, para mim, é uma cidade em que todo mundo tem água e todo mundo tem esgoto tratado." População tomando banho no Balneário do Tarumãzinho, na Avenida do Turismo, bairro Tarumã, em Manaus, na década de 70. Reprodução/Selvatur