Cachaça do Mudo se tornou Cachaça Caipira e empreendimento soma 80 anos de história em Itapecerica Cachaça Caipira/Divulgação Existem histórias que começam pequenas, quase como uma tentativa de sobrevivência, e acabam atravessando gerações e fronteiras. Em Itapecerica, uma delas nasceu entre o canavial e o trabalho na roça pelas mãos de Antônio Lopes de Lima, o “Mudo”, e se transformou em uma tradição familiar que já chega à quarta geração.
O que começou como uma produção artesanal, movida a roda d’água e transportada em carro de boi, ganhou escala ao longo de oito décadas, conquistou consumidores em Minas e em outros estados brasileiros e foi exportada. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 Centro-Oeste de Minas no WhatsApp Esta é a terceira reportagem da série especial “Itapecerica: Sabores, Sons e Memórias”, que o g1 apresenta todos os domingos.
Em cada capítulo, diferentes aspectos da história, da cultura e das tradições que ajudam a contar a identidade do município, e, desta vez, o protagonismo é da bebida que carrega, ao mesmo tempo, um registro oficial e um apelido que virou memória popular. Antes da cachaça, veio a rapadura A colheita da cana de açúcar é a primeira etapa para a produção da bebida - Itapecerica Cachaça Caipira/Divulgação A história da Cachaça Caipira começou, na verdade, antes mesmo da primeira garrafa.
Em 1946, Antônio Lopes de Lima começou a produzir rapadura com a ajuda e a influência do pai, Joaquim Lopes de Lima, o Quincote. Surdo e mudo, os filhos contam que Antônio era habilidoso e inteligente, mas enfrentava desafios para construir o próprio caminho. E foi na rapadura que a família encontrou o primeiro produto.
A produção seguiu por esse caminho durante alguns anos, até que o cenário do comércio começou a mudar. Em 1953, aos 16 anos, Antônio percebeu que a venda da rapadura estava caindo diante da chegada do açúcar ao comércio. Em vez de insistir em um mercado que começava a perder espaço, ele decidiu mudar de atividade e passou a produzir cachaça, uma decisão que definiu o futuro de toda a família.
O apelido que virou identidade Antônio Lopes de Lima ficou conhecido como “Mudo”, apelido inicialmente associado à sua condição que, com o tempo, acabou incorporado à história da bebida produzida. A primeira denominação atribuída ao produto foi “Finíssima Cachaça Caipira” e, mais tarde, a bebida passou a ser registrada oficialmente como Cachaça Caipira.
Entre os consumidores, os moradores e as pessoas que conheciam a história do produtor, porém, o nome “Mudo” permaneceu, dando origem a uma dupla identidade que acompanha a marca até hoje: Cachaça Caipira, oficialmente, e Cachaça do Mudo, na memória de muita gente. Talvez não exista maneira melhor de resumir a relação entre o homem e o produto do que essa. A bebida passou a carregar o nome pelo qual o próprio produtor ficou conhecido.
Uma produção movida pela água Mina que alimentava a roda d´água existe até hoje no alambique em Itapecerica Anna Lúcia Silva/g1 Quem toca o negócio atualmente são os filhos e netos de Antônio Lopes, que lembram que os primeiros anos do negócio estavam muito distantes da realidade atual. "Não tinha energia elétrica onde funcionava o engenho, e a produção dependia de uma roda d’água, por isso a capacidade ficava perto dos 40 litros de cachaça por dia.
O trabalho começava na cana e terminava nas garrafas que iam para as estradas de terra até chegar aos consumidores. E até o transporte fazia parte da dificuldade, porque a cana e a cachaça eram levadas em carro de boi para povoados e comunidades da região, entre elas Lagoa, Lameus e Sabarazinho", contou a esposa de Antônio Lopes, Ercília Maria de Lima. Era um negócio pequeno, artesanal e completamente dependente da mão de obra da família, mas foi justamente ali que começou a reputação da Cachaça Caipira.
Quando a eletricidade chegou ao alambique O negócio cresceu junto com as transformações tecnológicas que chegaram ao campo. Em 1963, com a ajuda dos filhos, de vizinhos e de outras pessoas da comunidade, a energia elétrica finalmente chegou ao alambique, abrindo caminho para novas possibilidades.
Dois anos depois, em 1965, Antônio, com o apoio da esposa, dona Ercília, comprou um motor a diesel para o engenho, investimento que transformou a capacidade produtiva: a produção, que antes era de aproximadamente 40 litros por dia, passou para cerca de 160 litros de cachaça diariamente. A roda d’água ficava para trás, e a família entrava em uma nova fase.
Uma família inteira dentro do negócio Senhor Antônio Lopes, o Mudo e a esposa Dona Ercília Maria Lima - Itapecerica Anna Lúcia Silva/g1 A história da Cachaça Caipira nunca foi apenas a história de Antônio. Em 1963, ele se casou com Ercília Maria de Lima, e juntos tiveram cinco filhos: Guilherme, Guido, Paulo, Maria Rita e Inêzilia.
A família foi crescendo ao mesmo tempo em que o negócio também se desenvolvia, e os filhos passaram a participar da rotina do alambique, ajudando na construção de uma atividade que deixou de depender apenas das mãos de Antônio. A produção se tornou uma espécie de patrimônio familiar, em que o trabalho de uma geração passou a ser o aprendizado da geração seguinte, um processo que continua até hoje.
O segredo está na continuidade Em um mercado em que empresas mudam de mãos, marcas desaparecem e produtos tradicionais são substituídos por novas opções, a Cachaça Caipira encontrou uma forma de permanecer. A família mantém a produção no mesmo local e preserva a receita original, transmitida de pai para filho. O que não significa que tudo tenha ficado exatamente igual.
Ao longo das décadas, equipamentos foram substituídos, processos foram aprimorados e novas exigências foram incorporadas. Segundo a família, a produção foi adequada às normas sanitárias e ambientais, e a marca possui registro e certificação junto ao Ministério da Agricultura. Em 2007, a Cachaça Caipira passou por novas adequações para atender a essas exigências.
A lógica foi simples: modernizar o processo sem abandonar aquilo que fazia a bebida ser reconhecida. A tecnologia mudou, mas a receita, não. Tradição e inovação no mesmo alambique É justamente esse equilíbrio que ajuda a explicar a longevidade do negócio.
A Cachaça Caipira mantém a produção artesanal como parte de sua identidade, mas incorporou os recursos e procedimentos necessários para acompanhar as exigências atuais, e a preocupação com qualidade, segurança do produto e responsabilidade ambiental passou a fazer parte da rotina.
Ao mesmo tempo, a família preservou o conhecimento acumulado desde os primeiros anos, resultando em uma produção que tenta conciliar dois tempos: de um lado, a memória do engenho, a cana, a receita familiar e as histórias contadas pelos mais velhos; de outro, os equipamentos modernos, as exigências sanitárias, o registro da marca e um mercado consumidor muito maior.
De Itapecerica para o Brasil Cachaça do Mudo produzida em alambique de Itapecerica ganhou o Brasil e chegou a ser exportada para a Suíça Anna Lúcia Silva/g1 O que nasceu para atender consumidores próximos ultrapassou as fronteiras da zona rural de Itapecerica. A Cachaça Caipira é comercializada no próprio alambique e distribuída para diferentes estados brasileiros. E o produto também chegou ao exterior, segundo a família.
A bebida conquistou consumidores até na Suíça, conforme o relatos dos netos de Antônio, Gabriel Lima e Vinícius Gabriel. "A gente já exportou para a Suíça, teve uma época. Hoje a gente só vende no Brasil mesmo, mas é interessante pensar que quando começou, a cachaça que antes era transportada em carro de boi nas estradas de terra passou a viajar milhares de quilômetros", disse Gabriel.
A quarta geração assume o legado Atualmente, a continuidade do negócio está nas mãos de mais uma geração. Aos 87 anos, Antônio, o “Mudo”, acompanha com entusiasmo a fabricação da cachaça e se orgulha de ver o trabalho iniciado ainda na juventude continuar vivo. Os filhos Guilherme, Guido e Paulo seguem ligados à produção, junto com os netos Gabriel e Vinícius.
E assim, a história chega à quarta geração. O menino que começou fazendo rapadura aos poucos encontrou na cachaça um caminho para a família. Os filhos aprenderam com ele, os netos aprenderam com os pais, e a nova geração passou a carregar não apenas uma receita, mas uma história.
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Só que existe também uma dimensão que não aparece no rótulo, mas está na memória de Antônio, na lembrança dos filhos, nas histórias contadas pelos netos. Está na antiga roda d’água, no carro de boi, no primeiro motor a diesel, na chegada da eletricidade, na mudança da produção de rapadura para a cachaça, e nas garrafas que continuam saindo do mesmo território onde tudo começou. Cachaça Caipira tem 80anos de história em Itapecerica Cachaça Caipira/Divulgação VÍDEOS: veja tudo sobre o Centro-Oeste de Minas



