Anacelia, Fabíola e Anthony Ravi Reprodução/Acervo pessoal "Sortudas" é como Anacelia e Fabíola, de Porto Velho, se definem ao se tornarem mães do pequeno Anthony Ravi por meio da adoção. O casal esperou cerca de dois anos para entrar na fila da adoção e seis meses para chamar o bebê de filho e ter o nome das duas no registro.
Durante o processo, elas precisaram rever expectativas e enfrentar preconceitos relacionados à adoção por um casal homoafetivo e à decisão de acolher uma criança fora do perfil inicialmente mais procurado. O Ravi é autista e precisa de bastante apoio no dia a dia. Ele também tem perda de audição em um dos ouvidos e plagiocefalia.
Para o casal, os diagnósticos não foram um impedimento para a adoção. Pelo contrário, elas dizem acreditar que foram escolhidas pelo menino. “Ele que nos escolheu para ser mãe dele.
Com ele, estamos aprendendo muitas coisas boas. Todos os dias ele nos ensina a viver”, conta Fabíola. Veja os vídeos em alta no g1: Agora no g1 Em 14 de outubro de 2026, Rondônia tinha 34 registros de crianças e adolescentes que aguardavam adoção, segundo dados do Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento (SNA).
Desse total, 52,9% eram do sexo feminino e 47,1%, do masculino. Pessoas pardas representaram a maioria dos registros. A ligação que mudou tudo Depois de passarem pela preparação e serem consideradas aptas à adoção, Anacelia e Fabíola estavam abertas à possibilidade de acolher uma criança fora do perfil inicialmente idealizado.
O maior desejo das duas era se tornarem mães e terem um filho nos braços para cuidar e amar. “Tínhamos isso no nosso coração, pois, para nós, o que importa é que queríamos ser mães e ter o nosso filho nos nossos braços. Então, ter um filho com algum diagnóstico de saúde não seria nenhum obstáculo na nossa vida”, diz Anacelia .
Em maio, após cerca de dois anos e seis meses de espera e preparação, a equipe técnica entrou em contato com o casal para informar que havia uma criança. Segundo elas, a ligação aconteceu em uma sexta-feira, e as duas tiveram até a segunda-feira seguinte para pensar na decisão, embora já soubessem o que queriam. “Nosso coração foi a mil, mas tínhamos certeza do que queríamos, sem dúvida.
Já falamos que queríamos com toda a certeza, na mesma hora. Mas elas falaram que nós teríamos que pensar. Então, isso foi na sexta-feira e tivemos até segunda para poder pensar.
Claro que nossa resposta foi sim”, relata Anacelia. A chegada de Ravi e as pequenas conquistas Depois da aproximação e dos procedimentos necessários, o casal recebeu a guarda provisória de Ravi. Na primeira noite na nova casa, o bebê dormiu a noite toda, sem estranhar o ambiente.
As mães, por outro lado, passaram a noite acordadas, admirando o filho. “Não conseguimos dormir, só olhando para ele, sem acreditar que estávamos do lado do nosso filho. Nos olhamos uma para a outra e falávamos que valeu a pena esperar”, conta Fabíola.
A chegada do menino também trouxe uma rotina de cuidados e acompanhamento médico. Entre as conquistas que mais emocionaram as mães está o desenvolvimento motor de Ravi. Segundo o relato da família, uma avaliação médica apontava que o menino poderia não andar por causa das dificuldades motoras.
Com o acompanhamento e as terapias, porém, ele começou a dar os primeiros passos sem precisar de aparelhos de apoio. “Ele não iria andar, mas, com a graça de Deus e suas terapias, hoje nosso filho anda sem precisar de nenhum aparelho de apoio. Antes, ele não fixava o olhar em nós e hoje já até abraça, no tempo dele”, diz Fabíola .
Crianças mais velhas também aguardam uma família Dados do Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento (SNA), consultados em 14 de outubro de 2026, apontam 34 registros de crianças e adolescentes que aguardavam adoção em Rondônia. Desse total, 17 tinham 10 anos ou mais, incluindo oito com idade superior a 16 anos.
Os dados chamam a atenção para a importância de ampliar o olhar sobre a adoção de crianças mais velhas e adolescentes, que também têm direito de crescer em uma família e podem enfrentar mais dificuldades para encontrar pretendentes compatíveis com seu perfil. Segundo o Tribunal de Justiça de Rondônia (TJRO), o tempo de espera pela adoção não pode ser atribuído a uma única causa.
Ele varia conforme a situação jurídica da criança ou do adolescente, o perfil indicado pelos pretendentes e a existência de uma família compatível. Preparação vai além da escolha do perfil Cartilha de processso de adoção durante preparação Reprodução/Acervo pessoal A adoção envolve dois processos que caminham paralelamente: a preparação e a habilitação dos pretendentes e a garantia dos direitos da criança ou do adolescente.
O acolhimento institucional, por si só, não significa que a criança esteja disponível para adoção. Antes disso, é necessário que a situação jurídica seja definida e que as etapas legais sejam concluídas. Em Porto Velho, a preparação dos pretendentes inclui um curso on-line e outro presencial, promovido pela Vara de Proteção à Infância e Juventude, por meio do Núcleo Psicossocial de Proteção à Infância e Juventude (NUPS).
Depois, os interessados podem solicitar a habilitação, apresentar a documentação exigida e passar por um estudo psicossocial. Se atenderem aos requisitos legais, podem ser habilitados e inseridos no SNA. De acordo com a psicóloga do TJRO, Danielle de Oliveira Paulon, a preparação ajuda os pretendentes a refletir sobre suas expectativas, reconhecer seus limites e conhecer outras possibilidades de adoção.
“Ampliar o perfil não significa aceitar uma situação para a qual a família não esteja preparada, mas conhecer outras possibilidades de filiação e compreender que o vínculo familiar pode ser construído em diferentes idades e circunstâncias”, explica. Autoconhecimento também faz parte da adoção A preparação para a adoção também envolve o autoconhecimento dos pretendentes.
Segundo Danielle, é importante que eles reconheçam suas próprias vulnerabilidades e compreendam como experiências pessoais relacionadas a perdas, abandono e rejeição podem influenciar a construção do vínculo com a criança. A psicóloga recomenda que as famílias considerem o acompanhamento psicológico ou terapêutico como um recurso para aprofundar esse processo e se preparar emocionalmente para a parentalidade adotiva.
A especialista ressalta que crianças com o mesmo diagnóstico podem apresentar necessidades e potencialidades diferentes. Por isso, a avaliação deve considerar cada uma individualmente, levando em conta os cuidados necessários e a disponibilidade emocional e prática da família. Adaptação exige tempo e acompanhamento Para a especialista o vínculo afetivo não acontece necessariamente de forma imediata.
Ele é construído ao longo do tempo, por meio da convivência, da confiança e da disponibilidade dos adultos para reconhecer as necessidades da criança ou do adolescente. Segundo a psicóloga, dificuldades iniciais não significam necessariamente que a adoção não dará certo. Quando surgem problemas durante a aproximação ou o estágio de convivência, a orientação é procurar a equipe técnica, que pode avaliar a situação e indicar os encaminhamentos necessários.
O estágio de convivência é acompanhado pela equipe interprofissional. O prazo previsto é de até 90 dias, com possibilidade de prorrogação por igual período mediante decisão judicial fundamentada. Informação para ampliar possibilidades Para quem deseja adotar, a orientação é buscar informações, participar da preparação e refletir sobre as próprias expectativas e limitações.
Segundo Danielle, a adoção não exige famílias perfeitas, mas adultos dispostos a aprender, buscar apoio e respeitar a história e o tempo da criança ou do adolescente. “A adoção não deve ser pensada apenas para bebês. Crianças maiores e adolescentes também têm o direito de crescer em uma família, de construir vínculos afetivos e de vivenciar a segurança e o pertencimento proporcionados pela convivência familiar”, orienta Danielle.
Além disso, o TJRO promove campanhas de conscientização, caminhadas e seminários para dar visibilidade às diferentes realidades da adoção. A proposta é ajudar os pretendentes a conhecer outras possibilidades de filiação, sem pressioná-los a aceitar situações para as quais não estejam preparados. “A intenção não é convencer todas as famílias a adotar crianças de qualquer idade ou condição, mas proporcionar informações para que possam refletir e tomar decisões conscientes.
Quanto mais conhecimento, maiores as condições para que compreendam a realidade da adoção para além das expectativas idealizadas”, conclui a psicóloga. Como entrar na fila de adoção? Quem deseja adotar uma criança ou adolescente pode procurar o Setor de Adoção da Vara da Infância e Juventude mais próximo para receber orientações sobre os procedimentos e a documentação necessária.
Em Porto Velho, a 1ª Vara da Infância e Juventude fica na Avenida Pinheiro Machado, nº 777, 4º andar, no bairro Olaria. Passo a passo para adotar Procurar a Vara da Infância e Juventude para receber orientações sobre a documentação necessária Apresentar o pedido de habilitação para adoção Participar do curso preparatório Passar pela avaliação psicossocial Aguardar a decisão judicial sobre a habilitação.
Se a habilitação for aprovada, os pretendentes são inscritos no SNA e passam a aguardar a indicação de uma criança ou adolescente compatível com o perfil informado, assim como aconteceu com Anacelia e Fabíola.



