Saiba por que cidade do AC é conhecida como ‘terra da farinha’ 🌱🍚 Se existe um jeito de reconhecer Cruzeiro do Sul pelo sabor, provavelmente é por causa da farinha. Mais crocante e produzida a partir da mandioca, ela virou uma das marcas da cidade e de quem vive no Juruá. Mas a história por trás dessa tradição é bem mais antiga do que os 122 anos que o município completa nesta segunda-feira (28).
Localizada a 633,5 quilômetros de Rio Branco pela BR-364, Cruzeiro do Sul foi fundada em 1904, às margens do Rio Juruá, e se desenvolveu em uma região que já era ocupada por povos indígenas e que ganhou importância durante o ciclo da borracha. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 AC no WhatsApp Para contar como Cruzeiro do Sul construiu essa identidade, e entender o que faz a cidade ser tão diferente de outras regiões do Acre, o g1 conversou com o historiador Marcos Vinícius Neves.
Ele explicou como a mandioca, a produção agrícola, a presença dos povos indígenas, o Rio Juruá e até os movimentos políticos ajudaram a formar a história e os costumes do município. Farinha é símbolo do município de Cruzeiro do Sul, no interior do Acre Gleison Miranda/Secom Segundo o historiador, o consumo da mandioca atravessa gerações e faz parte da alimentação de diferentes povos amazônicos há milhares de anos.
Por isso, para ele, não é estranho que uma cidade localizada no coração do Juruá tenha desenvolvido uma relação tão forte com a planta. ''A mandioca é uma matéria-prima criada e desenvolvida na Amazônia. Ela foi domesticada por povos indígenas há milhares de anos e passou a fazer parte da alimentação de diferentes comunidades da região.
Então seria estranho se o produto, o alimento produzido em Cruzeiro do Sul com excelência, fosse estrangeiro'', disse. 🤔 Mas uma pergunta permanece: se a mandioca é consumida em diferentes partes da Amazônia, por que a farinha de Cruzeiro do Sul ganhou características tão próprias? Marcos Vinícius diz que ainda faltam estudos que expliquem exatamente como essa tradição se tornou tão forte na cidade.
Ele, porém, relaciona o processo à própria história econômica do Juruá. LEIA MAIS: Negócio do AC aposta na identidade amazônica e usa farinha regional em chocolate artesanal: 'Criar conexões' Sancionada lei que torna cidade do AC capital nacional da farinha Arquitetura alemã, farinha, ladeiras e belos balneários: conheça mais sobre Cruzeiro do Sul Com a crise dos seringais e a queda da importância da borracha, a produção local de alimentos passou a ter um peso ainda maior.
Isso porque trazer produtos de outras regiões era caro, enquanto a farinha de mandioca já fazia parte da alimentação amazônica. “Com a crise da borracha, é provável que tenha vindo uma retomada da importância da farinha de mandioca como uma base alimentar para uma região que não tinha mais tanta riqueza quanto durante o auge do ciclo da borracha”, explicou.
Catedral Nossa Senhora da Glória em Cruzeiro do Sul Vanísia Nery/g1/Arquivo Produção agrícola Além disso, Cruzeiro do Sul também tinha uma produção agrícola significativa em pequenas propriedades, principalmente em áreas ribeirinhas. O historiador destaca que havia uma variedade de alimentos produzidos na região e que, ao longo do tempo, os moradores foram aperfeiçoando as técnicas de fabricação da farinha.
Esses conhecimentos, segundo ele, foram sendo compartilhados entre as comunidades e aprimorados ao longo das décadas. O resultado é uma farinha que tem características facilmente reconhecidas por quem conhece a produção do Juruá. Para o historiador, essa tradição é fruto de um processo social e cultural construído coletivamente.
“Essa farinha especial, muito ao gosto do acreano, mais caroçuda, menos fina, é mais crocante e é uma das riquezas do Acre. Tudo isso tornou a farinha de Cruzeiro do Sul diferenciada em relação a outras regiões, não só do Acre, mas em relação a toda a Amazônia”, afirmou. 🏆A fama da farinha de Cruzeiro do Sul também ganhou reconhecimento oficial.
Em 2024, uma lei sancionada pelo presidente Lula declarou o município como Capital Nacional da Farinha. O produto já era patrimônio cultural do Acre desde 2019 e havia recebido o selo de Identificação Geográfica (IG) em 2017. Farinha de Cruzeiro do Sul é conhecida como patrimônio Francisco Rocha/G1 Cidade planejada A história de Cruzeiro do Sul, no entanto, não começa na farinha.
A região do Juruá já era ocupada por povos indígenas quando os primeiros exploradores não indígenas começaram a avançar pelo território. A partir da segunda metade do século 19, a busca pelo látex levou exploradores para a região e transformou a dinâmica de ocupação da Amazônia. No Juruá, porém, esse processo encontrou uma resistência indígena que, segundo Marcos Vinícius, foi determinante para a formação histórica da região.
''O Vale do Juruá era ocupado principalmente por povos indígenas de línguas Pano, entre eles grupos como Náuas, Caxinauás, Jaminauás, Iauana(u)ás e Poyanauás. A resistência desses povos fez com que a ocupação não indígena avançasse de maneira diferente da observada em outras regiões do Acre'', ressaltou. A cidade foi então fundada pelo então coronel Gregório Taumaturgo de Azevedo, conhecido como Marechal Taumaturgo, que posteriormente virou o nome de um dos 22 municípios acreanos.
Thaumaturgo de Azevedo foi o fundador de Cruzeiro do Sul, em 1904, e comandou a instalação da cidade às margens do Rio Juruá Wikipédia A primeira sede chegou a ser pensada para o Miritizal, mas a área era alagadiça e foi considerada inadequada para a instalação da cidade. A sede acabou transferida para o Seringal Centro Brasileiro, onde Cruzeiro do Sul foi fundada em 28 de setembro de 1904.
“Thaumaturgo de Azevedo, que foi o fundador de Cruzeiro do Sul, planejou a cidade antes de abrir as ruas, antes de implantar os quarteirões”, explicou Marcos Vinícius. Se hoje a distância até Rio Branco é de mais de 600 quilômetros pela estrada, no início do século 20 o Rio Juruá era ainda mais importante para quem precisava chegar ou sair da cidade. Cruzeiro do Sul foi construída às margens do rio justamente porque ele era uma das principais vias de transporte daquele período.
A localização ajudou a moldar não só a economia, mas também os costumes da população. A presença do Juruá, a vida ribeirinha e a distância de outras regiões do Acre contribuíram para que o município desenvolvesse características próprias. Revolta pela autonomia Cruzeiro do Sul foi capital do antigo departamento do Alto Juruá, quando o Acre ainda era um território federal dividido em três departamentos.
Foi nesse cenário que a cidade entrou para a história como um dos primeiros centros da luta pela autonomia do Acre. Em 1910, os autonomistas de Cruzeiro do Sul tomaram o poder, expulsaram o prefeito departamental nomeado pelo governo federal e defenderam a transformação do território em estado. A revolta acabou reprimida pelas forças militares federais que estavam na cidade e terminou depois de cerca de 100 dias.
Registro histórico de Cruzeiro do Sul, interior do Acre Beatriz Cameli/Arquivo pessoal Segundo Marcos Vinícius, o movimento de Cruzeiro do Sul serviu de exemplo para outras revoltas autonomistas que ocorreram depois no estado. Sena Madureira teve uma revolta semelhante em 1912 e Rio Branco, em 1918. “Cruzeiro do Sul sempre teve à frente do movimento autonomista em prol da transformação do território federal em estado”, afirmou.
Formação cultural e festas A história do município não está apenas nos livros ou nos episódios políticos. Ela também aparece nas ruas, nas festas e nas manifestações religiosas. Marcos Vinícius destaca que a cultura popular de rua sempre teve forte presença em Cruzeiro do Sul.
No carnaval, manifestações como a Marujada, as Baianas e a Dança das Flores ocupavam as ruas. No fim do ano, era a vez de tradições como o Reisado e as pastorinhas. A religiosidade também ganhou espaço na identidade local.
A Festa de Nossa Senhora da Glória, segundo o historiador, se tornou uma das maiores manifestações religiosas do Acre e da própria Amazônia. Para ele, essa formação cultural está relacionada às características próprias da região do Juruá e também à influência histórica da Igreja Católica no município. São tradições que, junto com a produção agrícola, a vida ribeirinha e a presença dos povos indígenas, ajudam a explicar o jeito próprio de Cruzeiro do Sul.
Ruas de Cruzeiro do Sul foram tomadas por um mar de gente no encerramento do Novenário de Nossa Senhora da Glória Reprodução/Rede Amazônica Acre O que faz Cruzeiro do Sul ser diferente? Para quem nunca esteve na cidade, Marcos Vinícius resume essa diferença pela combinação entre natureza e cultura. O Rio Juruá continua sendo uma das principais marcas da paisagem.
Mas a região também reúne uma forte cultura ribeirinha, presença indígena, diversidade agrícola e áreas de floresta. O historiador cita ainda a Serra do Divisor e a riqueza ambiental do Juruá como características que ajudam a diferenciar a região de outras partes do Acre. “Cruzeiro do Sul é uma região superbonita, a própria presença do gigantesco Rio Juruá, do poderoso Rio Juruá na cidade”, afirmou.
Serra do Divisor tem uma das maiores biodiversidades do país Reprodução/Secom Acre Para ele, essa diversidade também aparece na história construída pelos diferentes povos que vivem na região. “O que destaca Cruzeiro do Sul em relação a outras cidades ou regiões do Acre é a sua imensa riqueza ambiental, beleza natural e também a sua riqueza social e cultural”, completou. VÍDEOS: g1



