A colombiana Melisa Gaona Arquivo Pessoal Numa das muitas vezes em que chegou a um pronto-socorro dobrada de dor, a colombiana Melisa Gaona ouviu que não havia o que fazer ali: ela não era "uma urgência vital", lhe disse o médico, mandando-a de volta para casa. Em outro momento, diz ela, quando insistiu que o que sentia era insuportável, um profissional respondeu que se ela queria morrer, que se matasse.
Melisa tem 26 anos, nasceu em Bogotá e convive desde a infância com endometriose, doença inflamatória crônica em que um tecido semelhante ao que reveste o útero cresce fora dele. No caso dela, chegou ao estágio mais grave, comprometendo órgãos e sua rotina. "Dói comer, dói andar, dói evacuar, dói urinar", ela resume.
"Isso já não é normal." Em 2025, depois de anos de cirurgias, medicamentos e internações sem alívio duradouro, Melisa tomou uma decisão que repercutiu dentro e fora da Colômbia: formalizou um pedido de eutanásia. Agora no g1 A ideia surgiu em 2025, quando ela estava internada. Melisa relembra que mal sabia o que a palavra eutanásia significava.
Escreveu o pedido sob uma única premissa: a de que já não sentia estar vivendo com dignidade. "Não porque eu não quisesse a vida", explica em entrevista à BBC News Brasil, "mas porque eu não queria continuar sofrendo com a dor. O pedido veio mais do desejo de não sentir mais dor." Na época, a jovem gravou um vídeo que viralizou, em que afirmava estar presa em uma espiral de sofrimento.
Tornar tudo público foi a forma que encontrou de ser levada a sério, segundo ela. Só que a exposição teve um custo: passou a receber mensagens de estranhos mandando que se matasse. "Ouvi muitas vezes que não tinha dignidade.
Mas o que é dignidade?", questiona. "Eu tenho dignidade porque sei o que é sentir dor. É o momento em que a gente diz: 'já não aguento mais'." O pedido, porém, foi negado.
Melisa não parou por aí. Com acompanhamento jurídico do DescLAB — organização colombiana que litiga pelo direito à morte digna — levou o caso à Justiça por meio de uma ação de tutela, o recurso a que recorrem, no país, os pacientes que têm o procedimento recusado. Desde então, ela passou a repetir uma frase: "Eu não quero morrer, quero parar de sentir dor." Para os médicos que tratam de dor crônica, uma frase como essa diz menos sobre a vontade de morrer do que sobre o tamanho do abandono.
"Na maior parte das vezes, não expressa um desejo primário de morte, mas o limite de uma pessoa que perdeu funcionalidade, autonomia, sono, trabalho, vínculos e esperança de melhora", diz o neurocirurgião Pedro Henrique Cunha.
Arquivo Pessoal 'Sempre me disseram que eu estava exagerando' A endometriose não é uma doença incomum. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 190 milhões de mulheres e meninas em idade reprodutiva convivem com ela no mundo, aproximadamente uma em cada dez. Ainda assim, o caminho até o diagnóstico é longo: estudos reunidos por publicações como o New England Journal of Medicine apontam um intervalo médio de seis a dez anos entre os primeiros sintomas e a confirmação da doença.
No caso de Melisa, os sinais apareceram na infância e se agravaram na primeira menstruação, aos 10 anos. O diagnóstico formal só veio em 2024. No meio do caminho, ela colecionou hipóteses erradas, de apendicite a câncer, passando por transtornos psicológicos, e uma sequência de médicos que, na opinião dela, minimizavam o que sentia.
"Cólica todas têm", ouvia. Chamaram-na de hipocondríaca. "O que mais me frustra é não ter sido ouvida e atendida a tempo", conta.
"Nem minha própria família acreditava. Era eu contra o mundo." Os efeitos da doença impactaram a rotina de Melisa. Ela parou de trabalhar e não sabe se um dia voltará.
Dormir virou tarefa difícil. Em alguns dias, os medicamentos a deixam tão anestesiada que perde o próprio corpo de vista. "Meu companheiro diz que, quando fala comigo, é como conversasse com um zumbi", relata.
O sonho de fazer faculdade ficou pelo caminho: "Sempre quis estudar medicina. Me frustra não ter conseguido, porque a doença não deixou." Segundo Raquel Magalhães, ginecologista especializada em endometriose do Hospital Nove de Julho, o longo percurso até o diagnóstico e o tratamento adequado é a regra, não a exceção. Ela resume o padrão em números: em média, oito anos de atraso no diagnóstico, quatro cirurgias mal indicadas e dez ginecologistas até um tratamento adequado.
"As mulheres são levadas a acreditar que o sofrimento faz parte de ser mulher", afirma. Comer, evacuar, urinar, ter relação sexual sem dor são funções básicas e, segundo a médica, tratá-las como sacrifício feminino é parte do problema. Magalhães faz questão de marcar um ponto que atravessa toda a história de Melisa: endometriose, na imensa maioria dos casos, tem tratamento.
Quando a paciente recebe uma abordagem completa — com cirurgia bem executada, acompanhamento multidisciplinar e atenção específica à dor —, a médica afirma que a qualidade de vida costuma melhorar de forma significativa. Segundo ela, os casos em que o sofrimento persiste mesmo após esse cuidado representam "o mínimo do mínimo".
Arquivo Pessoal Por que o pedido de Melisa foi negado na Colômbia A Colômbia é um dos poucos países no mundo que autoriza a eutanásia — e um dos mais avançados do mundo no tema. O procedimento foi despenalizado em 1997, regulamentado em 2015 e, em 2021, o país deu um passo decisivo: a Corte Constitucional derrubou a exigência de que o paciente estivesse em fase terminal. Desde então, uma pessoa com uma doença grave e incurável que cause sofrimento intenso pode, em tese, solicitar o procedimento.
Em 2022, o suicídio assistido também foi descriminalizado. A endometriose é reconhecida no país como doença crônica, progressiva e debilitante pela Lei 2338. Segundo a Associação Colombiana de Endometriose, mais de cem mulheres já teriam pedido eutanásia em razão da doença.
Mas, quando seu pedido foi analisado por uma junta médica de um hospital de Bogotá, em julho de 2025, o procedimento foi negado. Segundo Melisa, a justificativa foi que sua dor não atendia aos critérios previstos na lei e que ainda havia tratamentos a serem tentados, entre eles uma cirurgia. Meses depois, seria justamente uma cirurgia que lhe traria algum alívio.
A decisão refletia um ponto central da legislação colombiana: ela não exige apenas sofrimento intenso, mas sofrimento irreversível — o de quem já esgotou as alternativas terapêuticas disponíveis e, ainda assim, não encontra alívio. É o que explica Luciana Dadalto, advogada especializada em bioética e presidente da associação Eu Decido, que atua pelo direito à morte digna. "Ela não tinha esgotado os tratamentos possíveis", afirma.
Na avaliação da especialista, isso aproxima a história de Melissa menos do debate sobre o direito de morrer e mais de uma falha de acesso à saúde. Outro caso recente expôs as dificuldades de acesso à morte assistida no país. Catalina Giraldo, psicóloga de Bogotá de 30 anos, pediu suicídio medicamente assistido após mais de uma década convivendo com transtornos psiquiátricos como depressão e transtorno de personalidade borderline.
Contudo, sua solicitação foi negada por sua operadora de saúde. Depois de dez meses de disputa judicial, Catalina morreu por eutanásia em 9 de julho de deste ano. O caso reacendeu o debate sobre a morte digna, sobretudo para pessoas em sofrimento psíquico.
As diferenças entre eutanásia e suicídio assistido Conforme explica Dadalto, eutanásia e suicídio assistido são procedimentos diferentes. Na eutanásia, é um profissional de saúde quem administra a substância que causa a morte. No suicídio assistido, o próprio paciente toma uma medicação letal prescrita por um médico.
"A diferença está em quem executa o ato final, e ela pesa juridicamente", explica. Ela também contesta a ideia de que cuidados paliativos e morte assistida sejam caminhos opostos. Nos países onde a prática é legal, afirma, a maioria das pessoas que a escolhe também recebe cuidados paliativos.
"Os paliativos resolvem a maior parte dos sofrimentos, mas não todo sofrimento que a pessoa considera intolerável", diz. "Existe uma dimensão do sofrimento que é extremamente subjetiva." Nos países e regiões que autorizam alguma forma de morte assistida, os critérios variam. Na Nova Zelândia e em Estados americanos como o Oregon, o acesso é restrito a pessoas com doença terminal e prognóstico de vida de até seis meses.
Holanda, Bélgica e Luxemburgo adotam critérios diferentes, que incluem uma condição grave ou incurável e um sofrimento considerado insuportável, sem perspectiva de melhora. Já a Suíça proíbe a eutanásia, mas não pune a assistência ao suicídio quando quem presta a ajuda não age por interesse próprio. Segundo Dadalto, o ponto central é saber se a pessoa teve acesso aos tratamentos disponíveis e se, apesar deles, o sofrimento permaneceu sem alívio.
Os números da Holanda ajudam a dimensionar o alcance da legislação. Em 2023, o país registrou 9.068 notificações de casos de eutanásia, o equivalente a 5,4% de todas as mortes. Em 2024, foram 9.958 casos, ou 5,8% do total.
Segundo Dadalto, parte importante do debate sobre a aplicação da lei a pessoas que não estão em fase terminal envolve casos de demência e o medo de perder a capacidade de expressar a própria vontade. Quando a dor vira doença Para Pedro Henrique Cunha, neurocirurgião que coordena o grupo de dor do Hospital Samaritano Higienópolis, a frase dita por Melisa à reportagem — "eu não quero morrer, só quero parar de sentir dor" — é algo que ele e outros especialistas ouvem com certa frequência.
Ele pontua que ela revela um sofrimento extremo e deve ser levada a sério. "Na maior parte das vezes, não expressa um desejo primário de morte, mas o limite de uma pessoa que perdeu funcionalidade, autonomia, sono, trabalho, vínculos e esperança de melhora", destaca. "A dor crônica não é vista apenas como um sintoma prolongado.
Em muitos casos, ela se torna uma doença por si só", diz. Quando a dor persiste por meses, o próprio sistema nervoso se reorganiza: passa a amplificar estímulos e a manter o sofrimento mesmo depois de a causa inicial ter sido tratada. É o que a medicina chama de sensibilização central, um dos diagnósticos que, segundo Melisa, se somaram à endometriose no corpo dela.
Ele situa isso em um problema mais amplo de reconhecimento. "A dor é invisível. Não aparece no rosto o tempo todo, nem sempre aparece em exames", pontua.
Muitas pacientes, afirma, já ouviram que o sofrimento é normal, emocional ou "coisa da cabeça" — o que atrasa o diagnóstico, multiplica procedimentos e mina a confiança na medicina. "Quando a dor não é reconhecida, o paciente se sente abandonado." Cunha defende cautela redobrada no debate sobre morte assistida para dor crônica não terminal. Sua primeira pergunta, diz, seria sempre a mesma: "Essa pessoa teve acesso real a um centro especializado, a uma equipe multidisciplinar, a uma segunda opinião?
" "Precisamos ter extremo cuidado para que a morte assistida não se torne uma resposta à falha de acesso, à demora diagnóstica, ao abandono", afirma. Sofrimento desesperado ou intolerável? Luciana Dadalto, advogada especializada em bioética e presidente da associação Eu Decido, trabalha com uma distinção que a medicina holandesa formalizou e que, para ela, é decisiva: a diferença entre o sofrimento desesperado e o sofrimento intolerável.
O primeiro diz respeito ao sofrimento de quem ainda não teve acesso a todos os cuidados possíveis, enquanto o segundo se refere à dor que permanece mesmo depois das alternativas de tratamento se esgotarem. A advogada chama o primeiro caso de "morte social", quando a pessoa não deseja necessariamente morrer, mas não encontra condições dignas para continuar vivendo. "A morte assistida não pode ser uma forma barata de o Estado acabar com o sofrimento das pessoas", diz.
"Para isso é preciso política pública." Segundo a especialista, é também por isso que os processos de morte assistida costumam envolver avaliações médicas e psicológicas, além de um intervalo entre o pedido e o procedimento. O objetivo é verificar se o sofrimento pode ser aliviado ou se persiste apesar dos cuidados disponíveis. No fim de 2025, Melisa passou por uma cirurgia que retirou os focos de endometriose e melhorou significativamente seu quadro.
A dor, porém, não desapareceu. Ela conta que ainda convive com outros diagnósticos e continua em busca de novos tratamentos, sem descartar a eutanásia caso o sofrimento volte a se tornar insuportável. E no Brasil?
No Brasil, tanto a eutanásia quanto o suicídio assistido são proibidos. O tema voltou ao debate público em outubro de 2024, com a morte do poeta Antônio Cícero, membro da Academia Brasileira de Letras. Diagnosticado com Alzheimer, ele viajou à Suíça, onde recebeu assistência para morrer, aos 79 anos.
Em carta, escreveu que sua vida havia se tornado insuportável e que esperava morrer com dignidade. Embora os casos de Cícero e Melisa pareçam distintos, ambos convergem na mesma pergunta: o que os sistemas de saúde de seus países e a sociedade oferecem a quem sofre antes que a morte passe a ser considerada uma saída? Para Cunha, a resposta começa por reconhecer a dor muito antes desse limite.
"Nenhum paciente deveria chegar ao ponto de pedir a morte para ser finalmente levado a sério", diz. Para ele, a frase de Melisa não deveria ser lida como um pedido de morte, mas como um chamado de urgência para a medicina e os sistemas de saúde que, por anos, insistiram que aquela dor era normal. A endometriose de Melisa recuou, mas não por conta de uma política pública que a tenha alcançado.
O que trouxe um mínimo alívio ao seu quadro foi uma cirurgia no exterior, custeada por uma campanha de financiamento coletivo e doações: o que o sistema de saúde deveria ter oferecido e não ofereceu. Perguntada sobre o que faria se a dor não fosse uma constante, Melisa não fala em descanso, mas em trabalho. Gostaria de atuar numa ONG, ajudando mulheres que passam pelo que ela passou.
Esse trabalho já começou. Da própria experiência nasceu a FECCUM — Fundación de Endometriosis Colombia y Cuidado de la Mujer —, criada para reduzir o tempo até o diagnóstico, informar pacientes e profissionais de saúde e construir uma rede de cuidado que Melisa assume não ter encontrado. "Os seres humanos nunca vão entender a dor do outro, porque não a viveram", ela finaliza.
"Mas isso não significa que a gente não possa ter a empatia de entender que, mesmo que a mim não doa, ao outro pode doer."



