O comerciante Cláudio Crespi, que foi intoxicado por metanol em bebida alcoólica Arquivo pessoal O Ministério Público de São Paulo denunciou o dono de um bar em Guarulhos, na Grande São Paulo, e um vendedor de bebidas clandestinas por envolvimento na venda de bebidas alcoólicas adulteradas com metanol que provocaram intoxicação grave em um homem. A denúncia foi apresentada nesta sexta-feira (25) pela 16ª Promotoria de Justiça de Guarulhos.
Segundo o Ministério Público, o proprietário do estabelecimento conhecido como Budega Acopiara foi indiciado pela Polícia Civil por manter em depósito e vender bebidas adulteradas. Já Gilmar Silva dos Santos, que também aparece em ao menos outros quatro inquéritos sobre bebidas com metanol com vítimas, foi denunciado por distribuir e entregar ao consumo as bebidas adulteradas.
'Eu fiquei cego aos 55 anos': vítimas de bebidas com metanol convivem com sequelas permanentes, um ano depois De acordo com a investigação, a vítima, Claudio Crespi, consumiu em 27 de setembro de 2025 uma vodca após frequentar o estabelecimento. Ele desenvolveu um quadro grave de intoxicação por metanol e precisou ser internado. Um laudo pericial apontou que a vítima perdeu permanentemente a visão.
Uma garrafa de vodca russa com 40% de teor alcoólico que era usada como decoração pela família dele havia 5 meses ajudou a salvar a vida de Cláudio. Na época, a advogada Camila Crespi, sobrinha do comerciante, contou ao g1 que ele foi levado às pressas para a UPA da Vila Maria, e uma médica apontou a suspeita de metanol no paciente, que foi entubado. O problema: o hospital não tinha o antídoto que combateria a intoxicação.
A solução: Camila tinha, em casa. A Secretaria Municipal da Saúde da cidade de São Paulo informou que, na ocasião, o Centro de Assistência Toxicológica (Ceatox) recomendou a administração de bebida alcoólica russa por sonda nasogástrica no paciente. “Protocolo reconhecido e utilizado em situações emergenciais com bons resultados clínicos.
O procedimento foi acompanhado por um familiar que também é médico. A administração do antídoto (o próprio etanol) deve ser realizada em um equipamento de saúde, para impedir que o corpo transforme o metanol em substâncias tóxicas”, afirmou a pasta, em nota. A denúncia do MP vai ser analisada pela Justiça e tanto Gilmar quanto o proprietário do bar poderão virar réus e passarem a ser processados pelo caso de Cláudio.
Os dois foram procurados pela TV Globo, mas não responderam aos questionamentos até a última atualização. Venda de bebidas Um ano após crise do metanol, investigações avançam, mas ainda há mortes no país por intoxicação O documento do MP afirma que João Otávio Carlos Olinda adquiria bebidas de diferentes fornecedores sem exigir documentação fiscal de todos os produtos e priorizava aqueles que ofereciam preços mais baixos.
Já Gilmar Silva dos Santos declarou à polícia ter fornecido ao estabelecimento garrafas comercializadas como uma marca conhecida, que teriam sido compradas de vendedores desconhecidos nas proximidades do Mercado Municipal de São Paulo. Durante uma operação realizada em 15 de outubro de 2025, policiais apreenderam diversas garrafas de vodca no bar de João.
A perícia identificou que oito amostras continham metanol em concentrações entre 34,6% e 40,9%, concluindo que os produtos eram adulterados, impróprios para consumo e gravemente nocivos à saúde. O Ministério Público denunciou João Otávio Carlos Olinda pelos crimes de lesão corporal culposa e de comercialização de produto alimentício ou medicinal adulterado, alterado ou nocivo à saúde. Já Gilmar Silva dos Santos foi denunciado pelo crime de distribuição e entrega ao consumo de produto adulterado e nocivo à saúde.
O MP também pediu a redistribuição do processo para uma das Varas Criminais de Guarulhos para o prosseguimento da ação penal. "Eu tenho que aprender tudo de novo. Eu tive que aprender a ler, eu tive que aprender a andar, eu tive que aprender a falar", afirmou Cláudio ao Fantástico neste mês, um ano depois da intoxicação.
A intoxicação obrigou Cláudio a reaprender tarefas básicas. Hoje, ele participa de atividades de reabilitação e tenta recuperar a autonomia. "Eu fiquei cego, né?
Aos 55 anos. Eu não nasci cego." O antídoto O médico hepatologista Rogério Alves, que atua no Hospital Beneficência Portuguesa e é membro da Sociedade Brasileira de Hepatologia explica que o metanol é um tipo de álcool tóxico. Depois de ingerido, no fígado, ele se transforma em formaldeído e ácido fórmico, que atacam o nervo óptico, podendo causar cegueira, e também o sistema nervoso, podendo levar à morte.
“Os principais antídotos são o fomepizol, que é o ideal, e o etanol, usado no hospital quando o fomepizol não está disponível. Também se usa hemodiálise e bicarbonato para eliminar o veneno e corrigir o sangue. O etanol bloqueia a enzima do fígado que transforma o metanol em veneno.
Assim, o metanol é eliminado antes de causar dano”, explica Alves. E faz um alerta: mesmo sendo o álcool presente em bebidas, o etanol também é tóxico, quando usado em excesso, e pode causar coma, lesão no fígado e hipoglicemia. “Não dá para distinguir etanol e metanol.
Eles têm cheiro e aparência iguais, por isso bebidas adulteradas com metanol são extremamente perigosas." Casos continuam a ser registrados Uma reportagem do Fantástico neste mês mostrou novos episódios registrados em 2026. Em julho deste ano, Ana Caroline morreu após consumir bebida alcoólica contaminada em São Félix do Araguaia (MT). Inicialmente, familiares associaram os sintomas a uma ressaca, mas a suspeita de intoxicação por metanol surgiu quando ela passou a relatar dificuldades para enxergar.
A vítima foi transferida em uma UTI móvel para uma unidade com mais recursos, mas sofreu uma parada cardiorrespiratória durante o trajeto e morreu. Ela tinha 31 anos, era mãe de quatro filhos e havia iniciado recentemente uma faculdade de pedagogia. Dados apresentados pelo Ministério da Saúde mostram que, em 2025, foram confirmados 73 casos de intoxicação por metanol associados a bebidas adulteradas, com 25 mortes.
Em 2026, até meados de agosto, havia 17 casos confirmados e outros 23 em investigação. Secretarias estaduais de Saúde confirmaram sete mortes neste ano.



