Profissional que percorria áreas rurais de moto marcou a medicina em Tatuí Aos 24 anos, recém-casado e formado em Medicina no Rio de Janeiro, Gualter Nunes chegou a Tatuí (SP) com o objetivo de construir uma família. Mas sua trajetória na cidade foi muito além da vida pessoal: com atendimento gratuito à população mais pobre e visitas a pacientes da zona rural de motocicleta, ele deixou marcas na história do município.
Para o Dia do Médico, celebrado neste domingo (18), o g1 conta a história do profissional que, segundo relatos da família, foi o primeiro morador de Tatuí a comprar uma motocicleta. Ele também atuou como voluntário durante a Revolução Constitucionalista de 1932.
📲 Participe do canal do g1 Itapetininga e Região no WhatsApp Os diversos desdobramentos da vida de Gualter estão sendo reunidos pelo bisneto dele, Ricardo Bassoi, de 52 anos, que apesar de não convivido com o bisavô conta em detalhes histórias que o fazem ter um carinho imenso pelo familiar. "Sou filho de Roberto Nunes Bassoi, neto de Nelly Nunes Bassoi, filha primogênita do Gualter. A Nellu falava muito exatamente do pai dela.
Ele sempre foi muito à frente do tempo dele", comenta Ricardo, que é diretor de tecnologia. Gualter estudou medicina no começo do século XX, na então Faculdade de Medicina, hoje parte da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Antes de se mudar para Tatuí, o médico viveu em Piracaia, município paulista.
"E aí depois que ele se formou, ele era filho único, ele esolveu ir para Piracaia, aonde ele conheceu a minha bisavó. Começou a clinicar já em Piracaia, uma cidade pequena, fazendo os atendimentos como clínico geral", conta. Médico que atendia de graça e percorria áreas rurais de moto marcou história da medicina em Tatuí (SP) Arquivo Pessoal O jovem médico chegou em Tatuí em 11 de agosto de 1913, onde se estabeleceu e formou família, ficando no município até sua morte, em 4 de março de 1970, aos 80 anos.
"Não tem, assim, uma explicação do porquê ele quis vir para o interior, isso não tem documentado. Mas ele era de uma famíliam boa, tinha uma vida cômoda no Rio de Janeiro. Mas a Adalgisa, a primeira esposa dele, minha bisavó, tinha família em Piracaia.
Sei que eles acabaram indo para Tatuí e montou um consultório lá", Considera, na época, um médico renomado, apesar de jovem, Gualter atendia pessoas com boas condições financeiras, mas, ao mesmo tempo, conforme conta o bisneto, atendia de graça quem não podia pagar.
"Isso aí era uma prática comum, minha avó falava bastante disso também, aí outras pessoas também, tem bastante relatos de pessoas que tiveram o avô que foi atendido de graça ou um outro parente teve medicamento também fornecido pelo meu bisavô", compartilha Ricardo, a partir de histórias transmitidas pela família. Segundo Ricardo, algumas pessoas ficavam constrangidas por não conseguir remunerar o médico e tentavam oferecer animais como forma de pagamento. A resposta, porém, era sempre a mesma.
“Ficava constrangida de não pagar e queria levar galinha, queria levar porco.
E aí o meu bisavô falava: ‘Não, não precisa pagar’." LEIA TAMBÉM Clarão no céu e fim da guerra: conheça a história da suposta aparição de São Miguel Arcanjo durante a Revolução de 1932 Festival de Avaré que revelou Lenine e Chico César homenageia Almir Sater e abre espaço para novos talentos: 'Muito honrado', diz cantor Região de Itapetininga tem quase 30 casos de violência contra profissionais de enfermagem em 2026, diz Coren Consultas em áreas rurais eram feitas de moto Para chegar às propriedades rurais, enfrentava estradas de terra com uma motocicleta Harley-Davidson de 1914.
Segundo os relatos reunidos por Ricardo, Gualter utilizava o veículo para visitar pacientes em uma época em que os deslocamentos eram dificultados pela falta de pavimentação e pela lama formada depois das chuvas. "Sempre ligado às inovações, acabou adquirindo uma Harley Davidson, numa época que, por exemplo, os irmãos Harle eram vivos. Era uma coisa muito diferente para a cidade.
Relatos apontam que ele foi o primeiro motoqueiro da cidade e ficou conhecido por isso, por fazer atendimento médico, em pequenas propriedades rurais, indo de moto até esses locais", conta Bassoi. Gualter Nunes foi o primeiro morador de Tatuí (SP) a comprar uma motocicleta Harley-Davidson. Ele usava o veículo para percorrer estradas de terra e visitar pacientes que viviam em áreas mais distantes da cidade Arquivo Pessoal O médico também tinha um automóvel Rugby, de 1928, que usava nos atendimentos.
"A minha avó, ela morava de frente à antiga Delegacia de Polícia, na Praça Manuel Guedes, e o Rugby, ele ficava ali, dentro de uma jaulinha, fechado. Eu era criança, eu mesmo não conseguia tocar no carro,. Aí, depois de um tempo, Rugby foi para fazer restauração", explica.
O Rugby de Gualter ficou por algum tempo dentro de um espaço fechado com grades, em Tatuí (SP); atualmente, o veículo está exposto no Memorial do Rugby, na cidade Arquivo Pessoal "E é um carro que, obviamente, ele andava, ele circulava com esse carro pela cidade, mas que também fazia os atendimentos. Ele também ia para as localidades com esse carro", complementa Ricardo. Atualmente, o veículo está preservado no Memorial do Rugby, em Tatuí.
O médico também tinha um automóvel Rugby, de 1928, que usava nos atendimentos. O veículo está preservado e pode ser visto no Memorial do Rugby, em Tatuí (SP) Arquivo Pessoal Atuação na Revolução Constitucionalista de 1932 A atuação de Gualter também ficou marcada durante a Revolução Constitucionalista de 1932, conflito armado que mobilizou tropas paulistas contra o governo de Getúlio Vargas. Na época, ele atuou como capitão médico voluntário.
Um dos locais usados para atender os feridos foi o porão da Escola João Florêncio, onde funcionou um hospital improvisado.
"Traziam os feridos da frente de batalha, levavam para algumas localidades, algumas dessas localidades eram Tatuí." Formado em medicina pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, Gualter passou a maior parte da vida em Tatuí (SP), oferecendo atendimento médico à população Arquivo Pessoal Conforme os relatos recuperados pelo bisneto, Gualter ajudou a cuidar dos combatentes feridos e, ao lado do farmacêutico e professor Nacif Farah, ensinou noções de enfermagem a voluntários que auxiliavam nos atendimentos.
A estrutura era improvisada e dependia de doações. Entre os materiais utilizados estavam lençóis, álcool e gaze. Conforme Ricardo, os ensinamentos passados por Gualter durante o período do conflito deram o que seria, no futuro, uma escola técnica de enfermagem em Tatuí.
A Escola Técnica “Dr. Gualter Nunes” (ETGN) é uma instituição escolar profissionalizante voltada para a clientela jovem e adulta. Foi durante muitos anos a única escola profissionalizante na área da saúde da região.
No site da instituição, consta que a escola "tem hoje o orgulho em ostentar seu nome como seu patrono." Escola Técnica Dr. Gualter Nunes oferece cursos na área da saúde em Tatuí (SP) Arquivo Pessoal Participação na política e comunitária Além da Medicina, Gualter participou da vida pública de Tatuí. Foi vereador, primeiro vice-presidente da Câmara Municipal e, posteriormente, presidente do Legislativo.
O primeiro período de atuação na Câmara terminou em 1937, quando o Estado Novo dissolveu as casas legislativas municipais em todo o país. Em 1955, aos 66 anos, voltou a ser eleito vereador e assumiu novamente a presidência da Câmara. Apesar de ter ocupado cargos importantes na política municipal, Gualter, segundo Ricardo, nunca teve a vida pública como objetivo.
Sua atuação política foi mais uma das frentes em que contribuiu para a história da cidade. "Ele não queria, exatamente, mas pelo renome dele, pela toda a ajuda que ele tinha feito pela cidade, pelo histórico de ser um 'médico da pobreza', acabando sendo convecido a participar." Ele também esteve entre os fundadores do Rotary Club de Tatuí, em 1947. A participação em iniciativas comunitárias incluía ações como campanhas de vacinação e concessão de bolsas de estudo.
A ligação com o esporte também faz parte da história do médico. Gualter comprou um terreno e o doou ao Clube XI de Agosto para a construção de um campo de futebol. Depois, também doou as primeiras arquibancadas de madeira.
O estádio que funciona no local recebeu o nome dele. A inauguração oficial do estádio ocorreu em 11 de agosto de 1935, com uma partida contra o Palestra Itália, atual Palmeiras, que terminou empatada em 1 a 1. Curiosamente, a data coincide com o dia em que Gualter chegou a Tatuí, em 1913, e também com a data de aniversário do município.
Avião que pousou em Tatui (SP), nos anos de 1920. De acordo com Ricardo, Gualter é o terceiro das esquerda à direita Arquivo Pessoal Bisneto prepara livro A irmã de Ricardo, Danielle Mortago Bassoi, também bisneta de Gualter, foi a única da família a seguir os passos do médico e se formar em Medicina. Atualmente, ela mora em Jundiaí (SP), onde atua como pediatra.
Ricardo, por outro lado, conta que nunca teve afinidade com a área da saúde. Mas, se há algo que herdou do bisavô, foi a curiosidade e a vontade de explorar diferentes áreas. Diretor de tecnologia, ele decidiu se aventurar na escrita para registrar a história de Gualter em um livro.
"Eu comecei há cerca de um ano, organizando as histórias ouvidas pela minha avó e a procurando documentos que ajudassem a reconstruir a trajetória dele. A pesquisa inclui registros acadêmicos, documentos históricos e fotografias. Também consegui uma cópia da tese apresentada por ele durante a formação em Medicina, em 1912, na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro", detalha.
Da esquerda para a direita, Ricardo, a esposa dele, Aline, o cunhado Cláudio e a irmã de Ricardo, Danielle Arquivo Pessoal O trabalho, que começou como uma forma de preservar as memórias familiares, já reúne dezenas de páginas e está previsto para ser publicado no ano que vem. O bisneto diz que procura distinguir as lembranças transmitidas oralmente das informações que consegue comprovar em registros. "Eu puxei um pouco dele na questão multifacetada.
Eu não tenho nada a ver com a carreira de escritor, mas resolvi escrever a bibliografia para manter essa história. Eu acho que é mais do que uma homenagem, mesmo que simples, é também um registro histórico, separando o que é tradição oral da família do que realmente é fato", conclui o bisneto. Gualter Nunes, médico que ficou conhecido em Tatuí (SP) Arquivo Pessoal Initial plugin text Veja mais notícias no g1 Itapetininga e Região VÍDEOS: assista às reportagens da TV TEM



