Médica explica em quais casos laqueadura é indicada A laqueadura é uma alternativa para mulheres que buscam uma opção definitiva de contracepção. Recentemente, uma fala da governadora de Pernambuco e candidata à reeleição, Raquel Lyra (PSD), gerou debate sobre o procedimento, após ela sugerir pôr uma gestante que tem sete fihos na "fila da laqueadura" e dizer, em seguida, "faz sem ela saber". Raquel Lyra se desculpou publicamente após o caso repercutir.
"Como mãe, como mulher, eu sei o desafio que é decidir sobre o planejamento familiar. Essa fala minha em nada traduz o respeito que eu tenho às mulheres. Por isso, eu peço desculpas.
Foi uma fala equivocada. Eu não tenho compromisso com o erro", afirmou. ✅ Receba as notícias do g1 PE no WhatsApp A fala de Raquel Lyra foi gravada em vídeo durante a inauguração da Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Regional Dom Moura, em Garanhuns, no Agreste, enquanto ela ouvia a história de uma mulher com sete filhos.
"Aí tem que fazer laqueadura, visse? A gente bota na fila da laqueadura. Isso eu posso fazer.
[trecho inaudível] Mas faz sem ela saber", disse Raquel na ocasião. A declaração gerou repercussão porque a esterilização sem o consentimento da mulher é crime no Brasil. Mas, afinal, quem pode fazer uma laqueadura?
Quais são os critérios? É possível desistir? E quais são os riscos da cirurgia?
O g1 conversou com a ginecologista e obstetra Carolina Pordeus, doutora em Saúde, para explicar como funciona o procedimento, quando ele pode ser realizado e quais cuidados devem ser considerados antes da cirurgia. O que é laqueadura? Como ela é feita?
Quando é recomendada? Quem pode fazer? Qual a eficácia do procedimento?
Pode fazer laqueadura no parto? Pode desistir? Quais os riscos da cirurgia?
O que é laqueadura? O procedimento médico consiste no "corte" da ligação entre os ovários e o útero, que é feita por meio das trompas. Ao fechar essa passagem, por meio de cirurgia, os óvulos, que são liberados pelos ovários, não se encontram com os espermatozóides que acessam o útero pelo canal vaginal.
Dessa forma, a fecundação não ocorre e, consequentemente, a gravidez não é viabilizada. A cirurgia é um procedimento eletivo, ou seja, não é de urgência ou emergência. Ele precisa ser feito dentro de um bloco cirúrgico, com a paciente anestesiada.
"Laqueadura tubária é o nome técnico do procedimento que muita gente conhece como a 'ligação de trompa'. É um procedimento cirúrgico para fazer a contracepção, ou seja, evitar que a mulher tenha outros filhos. Tem que ser feito em bloco cirúrgico, tem que ser feito com um médico que opera, anestesista, enfim, com toda a estrutura de um hospital", explicou Carolina Pordeus.
⬆️ Voltar ao início desta reportagem. O que é a laqueadura Wagner Magalhães/Arte g1 Como é feita a laqueadura? Existem formas diferentes de fazer a laqueadura tubária.
Mas, em todas, a intervenção ocorre nas Trompas de Falópio, também conhecidas como tubas uterinas ou trompas – que são tubos finos que servem para conectar os ovários ao úterno. A laqueadura pode ser feita "amarrando" as trompas com anéis de plástico; cortando e cauterizando os tubos; ou cortando e costurando (sutura) os trompas.
Porém, existe mais de uma forma do cirurgião acessar as trombas, como explica a ginecologista e obstetra: Periumbilical: "A gente faz a laqueadura abrindo a barriga de forma tradicional, como se fosse uma cesariana pequena. Pode ser logo após o parto normal, que aí a gente faz [o corte] ao redor do umbigo, porque o útero, após o parto normal, fica bem alto. Aí, a gente faz um cortezinho ao redor do umbigo e faz a laqueadura das trompas"; Laparoscopia: "Outra situação também é por via de laparoscopia.
A gente faz aqueles furinhos, coloca uma câmera e um bracinho de robô vai lá e faz a laqueadura tubária"; Via vaginal: "Abre um pedacinho da vagina, lá no fundo do saco da vagina, consegue caçar as trompinhas e fazer a laqueadura"; Laparotomia: "Temos algumas formas cirúrgicas, mas a mais clássica, sem dúvida, é abrindo a barriga". ⬆️ Voltar ao início desta reportagem. Quando a laqueadura é recomendada?
Segundo Carolina Pordeus, "a laqueadura é indicada em qualquer mulher que deseje fazer a contracepção, que é evitar gravidez, de modo cirúrgico. Porém, até pela Lei do Planejamento Familiar, a gente tem alguns critérios que devem ser seguidos pra fazer a laqueadura". Entre os critérios está a mulher ter ciência de que se trata de um método cirúrgico, que está sujeito a falhas e, caso haja desistência após o procedimento, a possibilidade de reverter é mínima.
"Não é isenta de recidiva. Ou seja, tem uma chance de falha, é pequena, mas pode acontecer. E também, que caso ela [paciente] queira reverter, também tem uma chance pequena de conseguir.
Então, é um método que não dá pra dizer que ele é definitivo, mas é um método que é muito eficiente. [...] Se você se arrepender, você não tem como voltar atrás", explica a especialista. ⬆️ Voltar ao início desta reportagem.
Quem pode fazer laqueadura? Com a atualização da Lei do Planejamento Familiar, novas regras para fazer uma laqueadura entraram em vigor. Atualmente, podem se submeter à laqueadura pessoas nas seguintes condições: Maiores de 21 anos; Quem tem pelo menos dois filhos vivos, independentemente da idade; Pessoas sem filhos também podem fazer a esterilização, desde que tenham idade mínima; Mães podem fazer laqueadura imediatamente após o parto.
Ao passar pelos trâmites, a mulher precisa assinar um termo de consentimento. No documento, a paciente confirma que recebeu todas as informações necessárias sobre o método contraceptivo e a cirurgia. É necessário esperar 60 dias entre a manifestação da vontade e o ato cirúrgico.
Em 2023, houve uma mudança importante na legislação que regula a laqueadura no Brasil. Antes, era preciso aval do cônjuge para realização da cirurgia. Essa exigência deixou de existir.
Além disso, a idade mínima caiu de 25 para 21 anos. O procedimento cirúrgico está disponível pelo Sistema Único de Saúde (SUS) em todo o país. ⬆️ Voltar ao início desta reportagem.
Qual a eficácia da laqueadura? A laqueadura está entre os métodos mais eficientes para garantir contracepção, mas, segundo a obstetra Carolina Pordeus, não é o melhor. De acordo com a médica especialista, o procedimento cirúrgico ocupa a quarta colocação em nível de eficiência.
"No consultório, a gente não tem uma demanda muito crescente de laqueaduras, mas, sim, de métodos revertíveis. O implante que fica debaixo da pele é o mais eficiente para evitar a gravidez. [...] O segundo, acredite, é a vasectomia no homem.
Depois vêm os Dispositivos Intrauterinos (DIU). Em quarto lugar vem a laqueadura, no sentido de eficiência", pontua. ⬆️ Voltar ao início desta reportagem.
Pode fazer laqueadura no parto? Sim. A gestante pode realizar a laqueadura durante o parto, desde que tenha passado pelos critérios que autorizem ela fazer o procedimento.
"Desde a mudança da Lei do Planejamento Familiar, a gente pode fazer a laqueadura durante o parto. [...] Se tiver uma indicação de cesariana, ela [paciente] pode ser submetida à laqueadura tubária caso tenha passado pelos critérios. E se ela tiver um parto normal, também pode fazer a laqueadura periumbilical", disse a médica.
Todavia, a obstetra alerta sobre a maneira como a laqueadura é planejada. "O que não deve ser feito é fazer a cesariana por causa da laqueadura. Dizem 'Ah, eu fiz uma cesariana para ligar as trompas'.
Mas a Lei do Planejamento Familiar não diz que você precisa fazer a cesariana para poder 'ligar'. Na verdade, se passou pela cesariana, a paciente entrou nos critérios, se ela tem a documentação no tempo adequado, você pode proceder a laqueadura", explicou. ⬆️ Voltar ao início desta reportagem.
Pode desistir? Caso a mulher não queira mais fazer a laqueadura, ela pode desisitir sem precisar justificar a decisão. "A paciente pode desistir de fazer a laqueadura em qualquer momento desse processo de entrar nos critérios.
E, no dia do parto, mesmo ela estando extremamente decidida de que quer a laqueadura, na hora em que a gente disser 'a gente vai fazer a laqueadura', se ela disser 'não quero mais', ela tem autonomia", diz a ginecologista. Para que uma mulher realize a laqueadura tubária, após se enquadrar em todos os critérios, precisa, ainda, aguardar 60 dias antes da realização do procedimento. E mesmo que o termo de consentimento esteja assinado, a paciente pode desistir da cirurgia.
"O corpo é dela. Se ela quiser ter mais cinco filhos, isso não é da nossa alçada. O que nos cabe é orientar, acolher e tratar", disse Carolina Pordeus.
⬆️ Voltar ao início desta reportagem. Quais os riscos? Embora seja uma cirurgia considerada de "pequeno porte", a laqueadura traz riscos.
"Lógico que você vai abrir uma barriga em dimensões muito menos difíceis do que várias outras cirurgias de maior porte. Mas você pode, sim, ter um sangramento dentro da barriga, pode ter infecção na área da cirurgia, como qualquer outro procedimento cirúrgico", falou a ginecologista. ⬆️ Voltar ao início desta reportagem.
A laqueadura é uma cirurgia na trompa, o canal que liga o ovário até o útero Profissão Repórter VÍDEOS: mais vistos de Pernambuco nos últimos 7 dias



