Estátua da Justiça, em frente à sede do Supremo Tribunal Federal, em Brasília Antonio Augusto/STF O caso Master estourou há menos de um ano, em novembro de 2025, quando o Banco Central liquidou a instituição e a Polícia Federal prendeu seu dono, Daniel Vorcaro.
Em dez meses, o que era uma suspeita de fraude bilionária — a venda de carteiras de crédito sem lastro e a emissão de títulos que o banco não tinha como honrar — se tornou um escândalo que atinge a classe política em ano eleitoral e provocou um conflito aberto entre ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Preso em novembro, Vorcaro teve o celular apreendido pela Polícia Federal.
É nesse aparelho que foram encontradas conversas e registros que implicam autoridades do Legislativo e do Judiciário, entre eles o ministro Alexandre de Moraes, do STF, e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência. As investigações do caso Master indicam que Vorcaro mantinha uma rede de contatos que alcançava também servidores públicos, inclusive do Banco Central, políticos de diferentes lados e dirigentes de instituições financeiras.
Há indícios de que essas relações envolviam pagamentos, presentes, convites para festas luxuosas e benefícios em troca de informações e de ações em favor dos interesses do banco. A Operação Compliance Zero, deflagrada para aprofundar as investigações sobre o Master, teve dez fases até julho (veja detalhes abaixo). Originalmente, o ministro Dias Toffoli era o responsável no STF por supervisionar os trabalhos dos investigadores.
Em fevereiro, o casso passou para André Mendonça por suspeitas sobre o envolvimento de Toffoli em negócios com um fundo ligado ao Master. Nos últimos dias, a três semanas do primeiro turno das eleições, o caso escalou com um conflito aberto no Supremo em torno do avanço das investigações. Em 1º de setembro, Mendonça retirou o sigilo de um relatório da PF que revelou detalhes sobre a relação de Moraes com Vorcaro.
Mensagens extraídas do celular do ex-banqueiro preso sugerem que Moraes discutia com Vorcaro a possibilidade de a PF deflagrar uma operação contra o banqueiro, o que de fato ocorreu. Em 15 de novembro de 2025, o então dono do Master perguntou ao ministro: "Acha que segunda já tenho que estar fora?". Dois dias depois, o banqueiro foi preso no aeroporto quando tentava sair do Brasil.
O relatório indicou também que Moraes revisou e editou o contrato de R$ 131 milhões assinado por sua mulher, Viviane Barci de Moraes, pela prestação de serviços ao Master. Daniel Vorcaro Jornal Nacional/ Reprodução Master e Flávio Bolsonaro Em maio, o site Intercept Brasil revelou a existência de mensagens e um áudio em que Flávio Bolsonaro pediu dinheiro a Vorcaro para pagar a produção do filme "Dark Horse", que conta a história do ex-presidente Jair Bolsonaro, pai de Flávio.
As informações foram confirmadas pela TV Globo. Em uma das mensagens, o senador afirma: "Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente". Segundo a reportagem, Vorcaro pagou R$ 61 milhões.
Flávio Bolsonaro negava ter qualquer relação com Vorcaro. Após a revelação das mensagens, passou a dizer que o pedido de dinheiro corresponde a um "patrocínio" a um projeto privado, sem negócios irregulares. Flávio Bolsonaro fez campanha nesta quarta-feira (9) em Juiz de Fora (MG), a cidade onde seu pai levou uma facada durante a campanha de 2018 Pilar Olivares/Reuters Em julho, foi aberta uma investigação sobre o financiamento do filme sobre Jair Bolsonaro.
A apuração busca esclarecer a origem, o uso e o destino dos recursos, inclusive se parte do dinheiro foi usada para bancar Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. Nesta sexta-feira, soube-se que Flávio Bolsonaro é investigado no inquérito, relatado por André Mendonça, que apura os repasses feitos por Daniel Vorcaro. O levantamento do sigilo de parte dos documentos do caso Master, na quinta-feira (10), mostrou que Flávio é investigado por suspeita de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção.
O presidenciável negou irregularidades e pediu transparência total. Além do inquérito sob comando de Mendonça, há outra investigação no Supremo sobre "Dark Horse", relatada por Flávio Dino. Nesse braço, são investigadas a produtora do filme, Karina Gama, e o roteirista, o deputado Mario Frias (PL).
A PF investiga se R$ 2 milhões em emendas parlamentares direcionadas por Frias foram usados em contratos que não foram cumpridos por Karina. Operação ordenada por Dino nessa quinta-feira (10) apreendeu materiais em endereços dos dois e de outros investigados. Flávio Bolsonaro diz que não houve irregularidades na relação dele com Vorcaro e que cabe à produtora do filme prestar contas sobre "Dark Horse".
O candidato defendeu que o STF abra o sigilo das investigações sobre o filme. Master e Alexandre de Moraes Documentos que tiveram o sigilo retirado no dia 1º por Mendonça apontam que Moraes e Vorcaro mantiveram contato frequente e teriam se encontrado pessoalmente mais de uma vez entre março de 2024 e agosto de 2025. Foram revelados registros de contratos milionários entre empresas de Vorcaro e o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro.
Um dos contratos, de R$ 131 milhões, teria sido editado por Moraes, segundo a PF. Viviane e Alexandre de Moraes Divulgação Outro contrato, de R$ 50 milhões, previa pagamento em dinheiro ou por meio da entrega de bens. Uma proposta localizada pelos investigadores estabelecia que R$ 40 milhões seriam quitados com cotas de um jatinho e de um helicóptero.
As mensagens demonstram proximidade e gratidão de Vorcaro em relação a Moraes. Em novembro de 2025, o banqueiro afirmou ter uma “dívida de vida” com o ministro e agradeceu por “tudo”. Em outra conversa, reclamou a um interlocutor que um pagamento ao escritório de Viviane não tinha sido realizado e classificou a quitação como “o mais importante que temos”, dizendo que poderiam surgir “problemas”.
A PF também identificou mensagens sobre uma viagem de Moraes a Campos do Jordão, região turística do estado de São Paulo, em dezembro de 2023. Vorcaro determinou a auxiliares que preparassem uma “experiência completa” para convidados classificados como “ultra VIP”, com chef particular, passeios a cavalo e quatro seguranças. Os documentos apontam que a relação entre o ex-banqueiro e o ministro envolvia também eventos jurídicos organizados pelo Banco Master em Londres.
Moraes participou de decisões sobre convidados e programação. Moraes não se pronunciou sobre as investigações. O escritório de Viviane Barci informou que não conduziu causas para Vorcaro no STF e que, desde a liquidação do Master, o contrato foi suspenso.
Conflito entre ministros do STF A decisão de André Mendonça de retirar o sigilo de trechos do caso Master em 1º de setembro escalou para uma crise institucional do Supremo. O presidente da Corte, Edson Fachin, marcou uma sessão para a próxima terça-feira (15) para tentar uma saída. Mendonça liberou os trechos que mostravam diálogos entre Moraes e Daniel Vorcaro.
Alexandre de Moraes então lançou mão de relatórios de inteligência da PF, sem caráter probatório, para acusar Mendonça de abuso de autoridade na relatoria do Master. O ministro pediu à Presidência do STF que Mendonça fosse investigado. A reação de Mendonça veio com uma ordem para a destituição do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e do diretor de Inteligência da corporação, Leandro Almada.
O relator sustentava na decisão que a PF estava monitorando ministros do STF. Andrei recorreu da decisão, e o pedido foi analisado pelo ministro Flávio Dino, que devolveu o cargo ao diretor-geral e ao diretor de Inteligência.
Edson Fachin, André Mendonça, Flávio Dino e Alexandre de Moraes Alejandro Zambrana/STF, Antonio Augusto/STF e Gustavo Moreno/STF Fachin tenta saída, e sigilos caem Para tentar baixar a fervura, na quarta-feira (9), Edson Fachin tirou de Moraes a relatoria do inquérito das Fake News, em que Moraes pretendia investigar Mendonça e suspendeu as decisões de Mendonça e Dino sobre a direção da PF. O presidente do Supremo marcou a sessão do dia 15, sem especificar o escopo da discussão e se ela será aberta ou fechada.
Solicitou a Mendonça que abrisse o sigilo de inquéritos do caso Master – parte foi liberada na noite de quinta (10) e outra parte começou a ser revelada na noite de sexta-feira. Além do processo sobre Flávio Bolsonaro, também houve a quebra de sigilo de casos sobre Ciro Nogueira (PP-PI), Cláudio Castro (PL-RJ), Jaques Wagner (PT-BA) e Thiago Miranda. A investigação sobre Jaques Wagner apura a relação do senador com Augusto Lima, ex-sócio do Master.
A apuração aponta indícios de pagamento de vantagens financeiras, por meio de repasses a uma empresa ligada a familiares do parlamentar e da aquisição de um apartamento de luxo em Salvador. Wagner nega ter cometido qualquer ato ilícito ou concedido benefícios ao Banco Master.
Senador Jaques Wagner (PT-BA) e banqueiro Augusto Lima Andressa Anholete/Agência Senado e Vanner Casaes/Agência Alba No caso de Ciro Nogueira, a investigação apura a possível atuação do senador no Congresso em favor de Daniel Vorcaro e do Banco Master, com a apresentação da chamada “emenda Master”. A Polícia Federal aponta indícios de pagamento de vantagens financeiras ao parlamentar. Durante as operações, Nogueira negou as acusações.
Daniel Vorcaro e o senador Ciro Nogueira Jornal Nacional/ Reprodução A frente da investigação que envolve Cláudio Castro apura possíveis irregularidades nos R$ 3,6 bilhões aplicados pelo Rioprevidência, fundo de previdência dos servidores do Rio, no Banco Master. Segundo os investigadores, teria ocorrido uma manobra na direção do fundo para viabilizar operações consideradas de alto risco. Castro também negou as irregularidades durante diligências.
Ex-governador do RJ Cláudio Castro é investigado por favorecer empresários na concessão de licenças ambientais Jornal Nacional/ Reprodução Confira as fases da operação Compliance Zero, que investiga o caso Master: 1ª fase: prisão de Daniel Vorcaro e suspeita de fraude bilionária 2ª fase: familiares de Vorcaro e bloqueio de R$ 5,7 bilhões 3ª fase: prisão de “Sicário” e expansão para ameaças e espionagem 4ª fase: suspeitas sobre aportes bilionários do BRB 5ª fase: núcleo político e investigação sobre Ciro Nogueira 6ª fase: prisão do pai de Vorcaro e de policial federal 7ª fase: investigação sobre vazamentos dentro da PF 8ª fase: Cláudio Castro e recursos do Rioprevidência 9ª fase: Jaques Wagner e atuação parlamentar a favor do Master 10º fase: publicitário ligado a Vorcaro, intimidação de jornalistas e campanha contra o BC



