Polícia conclui inquérito do caso Gustavo Veloso e indicia pai e madrasta por vicaricídio A Polícia Civil do Tocantins (PCTO) concluiu o inquérito que investigava a morte de Gustavo Veloso Feitosa, de 3 anos, e indiciou o pai dele, o advogado Igor Veloso, e a madrasta, Kathellen Moreira. O menino morreu no dia 2 de agosto de 2026, na casa do pai, em Palmas.
Inicialmente, Igor e Kathellen foram investigados por homicídio duplamente qualificado e tortura, mas, após cerca de 60 dias de investigação, a polícia reformulou a tipificação e passou a atribuir aos dois outros crimes. Igor foi indiciado por vicaricídio, estupro de vulnerável, tortura e fraude processual. Kathellen foi indiciada por vicaricídio e fraude processual.
Segundo o delegado responsável pelo caso, Eduardo Menezes, novas informações obtidas durante a investigação ajudaram chegar nas tipificações. 📱 Clique aqui para seguir o canal do g1 TO no WhatsApp De acordo com a PC, o pai procurou a polícia somente no dia seguinte à morte e, inicialmente, relatou que Gustavo havia se afogado após cair na piscina. A investigação, porém, concluiu que a criança sofreu múltiplas agressões antes de morrer.
O laudo do Instituto Médico Legal (IML) também apontou lesões que levaram a polícia a incluir o estupro de vulnerável e a tortura entre os crimes atribuídos a Igor. A defesa de Igor Gustavo Veloso de Sousa e Kathellen Moreira da Silva afirma que discorda das imputações e ressalta que o indiciamento não representa uma conclusão definitiva de culpa.
Segundo os advogados, as responsabilidades devem ser individualizadas e baseadas em provas técnicas, e os fatos serão discutidos no momento adequado, com direito à ampla defesa (veja nota completa abaixo). Veja 10 pontos para entender o indiciamento do pai e da madrasta pela morte de menino: LEIA MAIS Caso Gustavo: entenda os crimes atribuídos ao pai e a madrasta Caso Gustavo: pai demitiu mãe 10 dias após nascimento do filho, diz delegado 1.
O que mudou no indiciamento Igor Gustavo Veloso de Souza e Kathellen Moreira foram presos em Palmas Divulgação/Instagram Delegado Eduardo Meneses A primeira versão da investigação apontava para homicídio duplamente qualificado e tortura.
Segundo o delegado Eduardo Menezes, naquele momento ainda não havia elementos suficientes para caracterizar o chamado vicaricídio, principalmente porque esse crime exige a demonstração de que a morte ou violência contra a criança teve como finalidade "causar sofrimento, punição ou exercer controle sobre a mãe". Com o avanço da apuração, a polícia reuniu informações sobre a relação entre Igor e Sabrina, mãe de Gustavo, além de mensagens, ameaças e relatos sobre episódios anteriores envolvendo a criança.
A investigação passou a apontar que a violência contra Gustavo também teria sido utilizada como forma de atingir Sabrina. O delegado explicou que a mudança não ocorreu de forma imediata. "Esses elementos caracterizadores do crime de vicaricídio, esses elementos subjetivos, eu precisava deixar claro que a morte foi com a intenção de fazer mal à mãe do Gustavo.
Isso em 48 horas, a gente não teria como conseguir." O pedido de prisão preventiva de Igor e Kathellen foi apresentado à Justiça 48 horas depois da morte. Segundo a investigação, quando foram presos, os dois haviam escondido aparelhos celulares, que posteriormente passaram a integrar o conjunto de elementos analisados pelos investigadores. 2.
O que levou ao vicaricídio O vicaricídio é o principal elemento que modificou a classificação feita inicialmente pela polícia. Segundo o delegado, no caso de Gustavo, a polícia aponta que a violência contra o menino também estaria relacionada à relação conturbada entre Igor e Sabrina. Um dos elementos considerados mais importantes foi a própria explicação atribuída a Igor para o início das agressões no dia da morte.
Conforme Menezes, Gustavo caiu na piscina e chegou a se afogar parcialmente, mas esse acidente não provocou a morte. Depois de retirar o menino da água, Igor teria perguntado quem havia autorizado a criança a entrar na piscina. De acordo com a versão apresentada pelo próprio investigado, Gustavo respondeu que havia sido a mãe.
Para a polícia, essa resposta foi determinante para a reação de Igor. “Ele quis mostrar controle e poder sobre a mãe. Então ele estava ali machucando o menino para mostrar força para sua mãe.” Para a investigação, esse episódio se somou ao histórico de ameaças e conflitos entre Igor e Sabrina e ajudou no enquadramento por vicaricídio.
3. As ameaças contra Sabrina A investigação também voltou ao início da relação entre Igor e Sabrina para entender o contexto de violência apontado pela polícia. Os dois se conheceram em 2018 e, em 2021, Sabrina passou a trabalhar no escritório de Igor.
Depois, os dois tiveram um relacionamento em janeiro de 2023 que gerou Gustavo. Segundo o delegado, ainda durante a gravidez Igor teria começado a querer ter controle sobre Sabrina, questionando onde ela estava e o que fazia. Depois do nascimento de Gustavo, os conflitos teriam aumentado, conforme a investigação.
Um dos episódios considerados relevantes ocorreu quando Sabrina não concordou que Gustavo, na época com cerca de nove meses e ainda em fase de amamentação, passasse a noite na casa do pai. A investigação apontou que após a recusa, Igor passou a fazer ameaças. A polícia afirma que Sabrina chegou a pedir uma medida protetiva e que, posteriormente, Igor teria ido até a casa dela e jogado o carro contra o portão.
Também foram encontrados áudios enviados por ele com ameaças. Um dos áudios foi lido pelo delegado durante a coletiva. "Eu tenho certeza que você vai pagar ainda por isso aí.
Eu te desejo tudo que tiver de ruim nessa terra. Eu te desejo que o inferno seja o seu reino sagrado, que você viva muito bem, muito feliz no inferno." Para o delegado, esses episódios são importantes porque ajudam a demonstrar que o conflito entre o casal não começou no dia da morte de Gustavo. 3.
Agressões contra Gustavo Gustavo Veloso Feitosa, de 3 anos, foi encontrado morto na casa do pai em Palmas Reprodução/TV Anhanguera Outro rumo da investigação foi os sinais de violência anteriores à morte. Segundo a polícia, Sabrina procurou a delegacia depois da morte do filho e apresentou vídeos que mostravam Gustavo machucado após visitas à casa do pai. O delegado afirmou que a apuração também identificou uma diferença no tratamento dado por Igor a Gustavo e aos dois filhos do primeiro casamento.
Segundo ele, os filhos mais velhos eram tratados de maneira diferente e Gustavo seria o único que retornava machucado das visitas. 4. A demissão da mãe após o parto Com a análise sobre a relação de Igor e a mãe de Gustavo, as investigações levantaram que Sabrina foi demitida 10 dias após dar à luz ao filho.
Antes disso, apesar da boa situação financeira de Igor, segundo a polícia, ele não ajudou no parto e Sabrina teve que realizar o parto em um hospital público. O delegado afirmou ainda que Igor teria transferido para o Estado parte do que seria destinado à manutenção do filho, relacionando a medida à situação trabalhista de Sabrina e ao recebimento do seguro-desemprego. A polícia também reuniu informações sobre dificuldades financeiras enfrentadas por Sabrina e Gustavo.
Segundo o delegado, uma das imagens analisadas durante a investigação mostrava uma geladeira vazia e um pedido de ajuda feito por Sabrina. Esses episódios foram utilizados pela investigação para reconstruir o contexto da relação entre Igor e Sabrina e avaliar a hipótese de violência doméstica que, posteriormente, sustentou o enquadramento por vicaricídio. 5.
O que aconteceu no dia da morte Segundo a versão apresentada por Igor durante o interrogatório, Gustavo estava na área externa da casa quando caiu na piscina. A criança não sabia nadar e teria começado a se afogar. Igor afirmou que retirou o menino da água.
A polícia confirmou que houve a queda na piscina e que Gustavo chegou a engolir água, mas ressaltou que o afogamento não foi a causa da morte. De acordo com o delegado, a partir desse momento Igor teria ficado descontrolado, após perguntar ao menino quem havia permitido que ele entrasse na piscina e ouvir que a autorização teria vindo da mãe. A investigação afirma que Igor passou a agredir Gustavo com chutes e socos, principalmente na cabeça e na barriga.
Depois, segundo a polícia, as agressões continuaram dentro da residência. A ingestão de bebida alcoólica também foi investigada. Conforme o delegado, Igor teria passado parte do dia na casa da mãe de Kathellen consumindo álcool e, ao retornar para casa, continuou bebendo.
A investigação também apontou o uso de medicamentos controlados junto com a bebida. “Durante a investigação, nós já ouvimos várias pessoas do relacionamento dele com a bebida e elas foram unânimes em dizer que, quando ele bebia, ele realmente se transformava. Ele ficava bastante agressivo.” No entanto, a polícia disse que o consumo de álcool e medicamentos foi apresentado por Igor como uma das causas do descontrole, mas não retira a responsabilidade pelas agressões.
6. As lesões que levaram ao estupro e à tortura O laudo do IML demonstrou que, além das agressões que teriam provocado a morte, a perícia identificou lesões na região íntima da criança, de acordo com o delegado. Segundo Menezes, a investigação concluiu que essas lesões não eram compatíveis com as pancadas descritas por Igor.
Uma perícia complementar teria indicado que houve introdução de objeto e que Gustavo estava vivo quando a lesão foi provocada. Esse resultado levou a polícia a incluir o estupro de vulnerável no indiciamento. “O estupro de vulnerável está configurado com a simples violação [íntima] do menino.
Independentemente se havia ali desejo sexual, um ato sexual ou, mais simplesmente, na minha visão, um ato de tortura.”, completou. As mesmas lesões também foram consideradas pela polícia para caracterizar o crime de tortura. A polícia também descartou a possibilidade de considerar a morte apenas como consequência não esperada de uma agressão, e argumentou que o volume e a intensidade da violência indicariam que Igor assumiu o risco de matar o menino.
7. A cena teria sido alterada A investigação também concluiu que houve alteração da cena da morte, uma vez que, quando os policiais chegaram à casa, Gustavo estava deitado, enrolado em um edredom. Segundo a polícia, ele havia tomado banho e estava com roupas diferentes das que usava anteriormente.
Essa alteração levou ao indiciamento por fraude processual. A versão inicial apresentada à polícia indicava que Igor teria encontrado o filho morto depois de ele dormir. Para os investigadores, porém, a disposição do corpo e outras evidências não eram compatíveis com o relato.
A polícia sustentou que Gustavo foi retirado da cama e que houve uma movimentação do corpo para produzir uma aparência diferente daquela em que a criança realmente morreu. “Quando a gente chega pelo trabalho policial na cena do crime, o menino está deitado, enrolado no edredom. Ele estava de banho tomado, as roupas dele foram trocadas e ficou claro que houve uma movimentação da cena em que ele ajeitava o corpo do menino.”, explicou o delegado.
8. Sobre os crimes contra a madrasta Igor Gustavo Veloso de Souza e Kathellen Moreira foram presos em Palmas Reprodução/Redes Sociais Kathellen foi indiciada por vicaricídio e fraude processual. Segundo a investigação, a madrasta estava na casa no momento das agressões e teria tido conhecimento de parte do que acontecia.
A polícia ouviu uma terceira pessoa que também estava no imóvel. Conforme o depoimento apresentado pelo delegado, essa pessoa estava em um cômodo mais distante, mas teria ouvido o choro de Gustavo. Segundo essa testemunha, Kathellen teria pedido que ela fosse ao quarto buscar um carregador.
Ao abrir a porta, a pessoa teria visto Gustavo chorando e com um dos olhos roxos. Apesar do relato, a madrasta apresentou uma versão diferente. Segundo o delegado, ela afirmou que ouviu um barulho de sapato batendo e pediu que a pessoa verificasse o que estava acontecendo.
Como não houve resposta, ela própria teria ido até a porta, batido e retornado para cuidar da filha. Para a polícia, porém, mesmo essa versão indicaria que Kathellen tinha conhecimento de que algo estava acontecendo no quarto. "A versão da Kathellen é outra, mas é uma versão que, mesmo assim, ainda que contrária à versão dessa terceira pessoa, ela confirma a opção.
Ela confirma que tinha conhecimento de que alguma coisa estava acontecendo naquele quarto." A investigação também aponta que Kathellen teria participado da alteração da cena da morte. Por isso, ela responde, segundo o indiciamento, como "partícipe da fraude processual". 9.
Frieza do advogado durante interrogatório A postura de Igor durante o interrogatório também foi mencionada pelo delegado na coletiva. Segundo Menezes, o investigado prestou um depoimento de aproximadamente duas horas e quinze minutos e apresentou uma nova versão para a dinâmica da morte. Em outro momento, o delegado relatou que mostrou a Igor um vídeo gravado antes de uma das visitas de Gustavo ao pai.
Nas imagens, a criança aparecia chorando e dizendo que não queria ir para a casa de Igor. Segundo Menezes, a reação de Igor ao assistir às imagens também foi considerada pela investigação. O delegado afirmou que o advogado não demonstrou qualquer sentimento de arrependimento.
“Eu imaginava, naquele momento, algum motivo, algum sentimento de arrependimento, de remorso. E a reação dele, após ver o vídeo, foi: ‘Olha, doutor, está vendo aí?. Não caiu uma lágrima no momento que o menino começa a chorar'”, relatou o delegado.
A avaliação sobre a postura do investigado, porém, é apresentada pelo delegado como parte de sua interpretação durante a investigação. O indiciamento foi fundamentado, segundo a Polícia Civil, no conjunto de depoimentos, perícias, imagens, mensagens e demais elementos reunidos ao longo dos cerca de 60 dias de apuração. 10.
O que a investigação concluiu Ao final do inquérito, a Polícia Civil passou a sustentar que a morte de Gustavo ocorreu depois de uma sequência de agressões iniciada após o episódio da piscina. Para os investigadores, o afogamento chegou a acontecer, mas não provocou a morte. A criança teria sido agredida na área externa e, posteriormente, dentro da casa, onde também teria sofrido violência que resultou nas lesões anais apontadas pela perícia.
A investigação também concluiu que a violência estava envolvida em um contexto anterior de conflitos entre Igor e Sabrina e que a mãe teria sido alvo de ameaças e outras formas de violência ao longo da relação. Esses elementos foram utilizados para enquadrar o caso como vicaricídio. O inquérito agora segue para análise do Ministério Público e do Poder Judiciário.
Mãe da vítima e advogada Sabrina Feitosa ao lado do filho Gustavo Veloso Reprodução/Instagram de Sabrina Feitosa Nesta segunda-feira (28) a Justiça do Tocantins determinou o trancamento definitivo da investigação contra Sabrina da Silva Feitosa, mãe de Gustavo, e contra a advogada dela, Stella Bueno, no inquérito que apura a morte da criança. O juiz concluiu que não havia justa causa para a continuidade da investigação contra as duas.
Nota da defesa de Igor e Kathellen A defesa de Igor Gustavo Veloso de Sousa e Kathellen Moreira da Silva informa que tomou conhecimento do indiciamento divulgado pela autoridade policial e analisará, com serenidade e responsabilidade, a íntegra do relatório final e os elementos utilizados para fundamentar suas conclusões.
Embora respeite o trabalho desenvolvido durante a investigação, a defesa discorda das imputações formuladas e ressalta que o indiciamento constitui manifestação da autoridade policial no âmbito do inquérito, não representando juízo definitivo de culpa.
Em uma investigação de elevada complexidade e repercussão, é indispensável que as condutas sejam rigorosamente individualizadas e que qualquer conclusão esteja amparada em provas técnicas seguras, sem presunções ou transferência automática de responsabilidade entre os investigados. As questões fáticas, jurídicas e periciais serão enfrentadas no momento e no foro adequados, sob o crivo do contraditório e da ampla defesa.
A defesa reafirma sua confiança de que os fatos serão devidamente esclarecidos no decorrer do processo.



