Um dia depois de chorar diante da garagem vazia e relatar ao g1 que já não conseguia dormir nem comer direito, Nilson da Silva, de 73 anos, voltou a sorrir. Nesta quarta-feira (1º), ele reencontrou o Opala 1977 que procurava havia 35 dias, em Campo Grande. O carro estava abandonado e foi localizado pela Polícia Militar uma hora após a publicação da reportagem sobre o desaparecimento.
Veja o vídeo acima. O g1 acompanhou o reencontro. Nilson chegou ansioso à delegacia, com uma pequena mala cheia de documentos nas mãos e os olhos marejados.
A expressão mudou assim que viu o carro. O Opala estava sujo, com sinais de uso e o interior mexido, mas a carroceria não tinha grandes avarias. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 MS no WhatsApp Depois de mais de um mês sem saber onde estava o veículo que quase não tirava da garagem, Nilson pôde conferir cada detalhe.
Olhou a lataria, abriu o carro, examinou o estofamento e encontrou fusíveis espalhados, tapetes fora do lugar e peças mexidas. Os pneus também estavam mais desgastados. Colecionador entrega Opala de luxo para conserto, paga R$ 15 mil e carro desaparece: ‘Não durmo mais’ ‘Agora posso sorrir’: Opala de luxo de colecionador é encontrado abandonado após 35 dias Para quem havia passado os últimos dias sem dormir e comer direito, os problemas pareciam pequenos diante do alívio de ter o carro de volta.
Nilson contou que já voltou a comer e, principalmente, a sorrir. “Está na minha mão o capital. O meu diamante está recuperado.” Uma vida entre carros Nilson não conteve a alegra ao reencontrar o carro Gabi Cenciarelli O apego ao Opala ajuda a explicar o impacto dos últimos 35 dias.
Nilson passou boa parte da vida profissional sobre rodas. Foi motorista de caminhão, caminhoneiro e guincheiro e, mesmo depois da aposentadoria, os veículos continuaram presentes na rotina. A paixão se transformou em coleção.
Ao longo dos anos, chegou a reunir 11 carros antigos. Entre os modelos que passaram pela garagem estão uma BMW de 1992, um Fusca 1972 e um Jeep 1968. O Opala chegou em julho de 2023.
Nilson comprou o veículo em Tangará da Serra (MT), depois de conhecê-lo por meio de um grupo de carros antigos. O modelo havia sido restaurado em São Paulo e veio para Campo Grande em uma cegonha, acompanhado de um Fusca e outro veículo. Desde então, quase não saiu de casa.
Em cerca de três anos, Nilson calcula ter rodado menos de 100 quilômetros com o Opala. Ele cuidava pessoalmente do abastecimento, dos pneus e da limpeza. Um dos filhos chegou a dirigir o carro algumas vezes, mas, na maior parte do tempo, ele permanecia guardado.
O veículo é um Opala Luxo 1977, verde-esmeralda perolizado, de duas portas e com quatro rodas SS. Nilson conhece de memória as características e diz nunca ter visto outro igual circulando por Campo Grande. Foi justamente esse cuidado que fez com que ele percebesse rapidamente o que havia mudado.
Nilson ainda não sabe quantos quilômetros o carro percorreu durante o desaparecimento, mas acredita que tenha sido bastante usado. Os pneus estavam desgastados e o interior, bem diferente daquele que ele havia deixado. Por outro lado, a parte que mais preocupava estava preservada.
A carroceria não apresentava sinais de colisão ou capotamento, e o estofamento continuava no lugar. Para Nilson, encontrar o Opala inteiro foi suficiente para transformar a ansiedade em alívio. O valor, segundo ele, não está apenas no preço do veículo.
O carro reúne a paixão por antigos, os anos dedicados às estradas e o cuidado de quem quase não permitia que ele deixasse a garagem. “Representa tudo. É meu xodó, é antigo, é relíquia.” Como o Opala desapareceu Nilson cuida do Opala de luxo como se fosse da família Gabi Cenciarelli A história começou em 25 de agosto, quando Nilson tentou resolver um problema elétrico no carro.
Um conhecido indicou um homem que poderia fazer o serviço e garantiu que ele era de confiança. Segundo o aposentado, o homem foi até a casa dele com ferramentas, abriu o capô e avaliou o veículo. Depois, disse que o reparo precisaria ser feito em uma oficina.
Nilson comprou uma bateria nova, pagou R$ 170 por um guincho e acompanhou o transporte até um endereço no bairro Santa Luzia. Ao chegar, estranhou não encontrar uma oficina como imaginava, mas recebeu a explicação de que ela funcionava na parte do imóvel voltada para outra rua. Ele acreditou e deixou o carro.
Nos dias seguintes, começaram os pedidos de dinheiro. O homem dizia que encontrava novos problemas e precisava comprar peças. Houve cobranças para serviços elétricos, rádio, funilaria e materiais que, segundo ele, precisariam vir de São Paulo.
Por último, afirmou que havia um defeito no câmbio e que seria necessário trocar engrenagens. Nilson conta que as explicações eram detalhadas e que, em alguns momentos, havia até outra pessoa do outro lado da linha para informar preços. Como queria aproveitar o período na oficina para deixar o carro em boas condições, continuou pagando.
A última entrega ocorreu em 8 de setembro, quando, segundo ele, o homem foi até sua casa e recebeu R$ 5,1 mil. Somados, os pagamentos chegaram a R$ 15,3 mil, valor informado também no boletim de ocorrência. Até então, Nilson não desconfiava.
A percepção de que havia algo errado veio quando o contato foi interrompido, por volta de 11 de setembro. Depois de perceber que havia sido bloqueado, voltou ao endereço onde deixara o Opala. Encontrou o imóvel fechado e o carro já não estava lá.
Segundo o aposentado, vizinhos disseram que as informações que ele havia recebido sobre o local não correspondiam à realidade. Foi naquele momento que Nilson percebeu que poderia ter caído em um golpe. Em 15 de setembro, procurou a Polícia Civil.
O caso é investigado como estelionato. 35 dias e uma garagem vazia Seo Nilson emocionado em entrevista com o g1 no dia anterior ao reencontro Gabi Cenciarelli A partir daí, começou uma procura que durou mais de um mês. Para Nilson, não era apenas o prejuízo de R$ 15,3 mil ou o valor do veículo.
O desaparecimento mudou a rotina dentro de casa. Ele mora sozinho há mais de 30 anos e estava acostumado a ver o Opala na garagem. Durante os 35 dias, o espaço vazio passou a ser uma lembrança diária do carro desaparecido.
Na terça-feira (30), Nilson recebeu o g1 em casa. Ao mostrar a garagem vazia, chorou. Contou que estava sem dormir direito, havia perdido a vontade de comer e já considerava a possibilidade de nunca mais encontrar o veículo.
Ainda assim, guardava esperança. Conhecia tão bem o Opala que acreditava que alguém poderia reconhecê-lo pelas características. A reportagem foi publicada durante a tarde, com imagens e detalhes do veículo.
Menos de uma hora depois, veio a notícia: a Polícia Militar havia encontrado o Opala abandonado em Campo Grande. Nilson ainda não tinha visto o carro, mas foi informado de que ele estava inteiro. Depois de semanas de angústia, a primeira reação foi dizer que finalmente poderia parar de chorar e voltar a sorrir.
O reencontro Na manhã desta quarta-feira, a ansiedade voltou enquanto Nilson esperava para finalmente ver o Opala. Foi à delegacia com os documentos necessários para retirar o veículo e, assim que se aproximou, começou a conferir o carro. A sujeira chamou atenção.
Depois vieram os pneus, o interior mexido, os fusíveis e os tapetes fora do lugar. Para alguém que rodou menos de 100 quilômetros com o veículo em três anos, as mudanças eram evidentes. Mas o que poderia ter acontecido e não aconteceu pesou mais.
O Opala não estava destruído, não tinha grandes avarias na carroceria e poderia voltar para casa. A diferença também aparecia no próprio Nilson. Um dia antes, ele chorava ao lado do espaço vazio na garagem.
Nesta quarta, diante do carro recuperado, contou que voltou a comer e sorrir. O aposentado não quis sair dirigindo. Preferiu chamar um guincho para transportar o Opala até em casa, onde pretende cuidar do veículo antes de colocá-lo novamente na rua.
A escolha tem um significado especial. Nilson trabalhou durante anos como guincheiro e, quando o carro ainda estava desaparecido, já havia dito ao g1 que, se fosse necessário, pagaria um guincho apenas para conseguir colocar o Opala novamente no lugar de onde saiu. Nesta quarta-feira, pôde cumprir o plano.
Depois de 35 dias, o Opala voltaria para a garagem que havia ficado vazia. E Nilson, que chegou à delegacia ansioso, com uma mala de documentos nas mãos e os olhos marejados, saiu de lá com outra expressão. “Meu diamante está recuperado.” Veja mais vídeos do Mato Grosso do Sul



