Voo Varig 820: conheça o piloto do interior de SP que fez pouso histórico na França No relógio eram quase 14h de 11 de julho de 1973. Quem estava a bordo do Boeing 707 RG-820, da antiga Varig, estava prestes a pousar no aeroporto de Orly, na França. Mas, em questão de segundos, algo mudou.
O que era para ser uma chegada tranquila se tornou um dos acidentes aéreos mais emblemáticos da história, com 123 mortos e 11 sobreviventes. Documentações técnicas e depoimentos de testemunhas apontam que a decisão rápida dos pilotos impediu que a aeronave atingisse áreas habitadas e uma tragédia ainda maior: realizar um pouso forçado em uma área rural da comuna francesa de Saulx-les-Chartreux. Na condução dos controles estava Antônio Fuzimoto, natural de Presidente Prudente (SP).
📲 Participe do canal do g1 Presidente Prudente e Região no WhatsApp Nesta reportagem, o g1 aborda a história de Fuzimoto, assim como detalhes do acidente que chocou o mundo e marcou a história da aviação. Confira os tópicos abaixo: Quem foi Antônio Fuzimoto A tragédia da Varig na França O impacto e o resgate do piloto Por que tantas pessoas morreram?
O relato do único passageiro sobrevivente O menino francês que viu a queda A pesquisa que resgatou a memória do aviador Antônio Fuzimoto era piloto de avião que se acidentou na França em 1973 Acervo/Família Fuzimoto - Reprodução/Bureau of Aircraft Accidents Archives Quem foi Antônio Fuzimoto Naquela cabine, o piloto do Oeste Paulista ocupava o assento esquerdo e estava na condução física direta dos controles da aeronave.
O comandante-master, Gilberto Araújo da Silva, ocupava o assento direito e coordenava a gestão da emergência e as comunicações por rádio com a torre de Paris. Isso consta categoricamente no Relatório Final do órgão pericial francês (BEA) e no depoimento ocular do engenheiro de voo sobrevivente Claunor Bello, que afirmou: "foi o comandante Fuzimoto quem pilotou e realizou o pouso".
As informações foram obtidas pelo g1 por meio do pesquisador Helio Careira, da Escola Superior de Guerra de São Paulo e pós-graduado em Segurança de Voo, e também pelo Relatório Final publicado em 6 de abril de 1976 no Journal Officiel de la République Française. Entenda mais abaixo. Antônio Fuzimoto começou a voar cedo e logo teve destaque na aviação Acervo/Família Fuzimoto Antônio Fuzimoto nasceu em Presidente Prudente, em 10 de julho de 1928.
Ele era filho dos imigrantes japoneses Haruki e Yone Fuzimoto, e cresceu impregnado por um código moral de dignidade, moderação, respeito e sobriedade. O desejo de voar surgiu cedo. Em entrevista concedida em 1975, ele recordou que tinha por volta de 15 anos quando expressou à família o sonho de ser piloto.
“Houve resistência inicial, mas sua determinação venceu até obter a autorização materna. Ele ingressou no Aeroclube de Presidente Prudente, onde obteve seu primeiro brevê”, compartilhou Helio com o g1. 🔎 O brevê (ou brevet) é um documento ou distintivo que certifica a capacidade técnica de uma pessoa para realizar uma atividade específica, principalmente na aviação ou nas forças armadas.
Antes de seguir carreira na aviação, Fuzimoto conciliava o trabalho no comércio de Presidente Prudente com os estudos para realizar seu sonho. Durante o dia, ele atuava em uma loja chamada Casa da Seda, onde fazia cortes para vestidos de noiva. Aos fins de semana, seguia para os estudos e os voos de instrução.
Em 1950, Antônio deixou o Oeste Paulista e seguiu para o Rio de Janeiro para o curso de piloto comercial, e ingressou na Panair do Brasil em 1951. Ainda conforme o pesquisador, em fevereiro de 1952, transferiu-se para a Aerovias Brasil na rota Rio–Miami em um Douglas DC-4. Em poucos anos, aquele jovem de Presidente Prudente já cruzava continentes.
Antônio Fuzimoto era de Presidente Prudente (SP) e se tornou destaque na aviação Acervo/Família Fuzimoto Em 1962, se casou com Gema Galgani Domingues, em Belo Horizonte, união da qual nasceram quatro filhos: Paulo, Andréa, Adriana e Alexandre. A perda prematura do primogênito Paulo, antes dos dois meses de idade, marcou profundamente o casal. “Esse episódio despertou nele uma generosidade silenciosa”, comentou ao g1.
Fora da cabine, Antônio era um homem caseiro, discreto, avesso a badalações e dedicado à formação dos filhos. A paixão pelo ofício também alcançou seu filho Alexandre Fuzimoto, que seguiu os passos do pai na aviação comercial e hoje é um experiente e respeitado comandante, com trajetória em linhas internacionais e na aviação executiva. Ele preferiu não falar com a reportagem.
Nos céus, relatos de quem trabalhava com Antônio o apontam como um piloto extremamente técnico, focado e calmo. Publicações da época também o descreviam a partir de quatro atributos essenciais: saúde, moderação, equilíbrio e segurança. “Acima de tudo, Fuzimoto recusava enfaticamente a ideia de heroísmo na aviação.
Para ele, pilotos eram simplesmente profissionais treinados à exaustão para responder a contingências e emergências. Costumava dizer que no comando de um avião não havia espaço para improvisações e vaidades”, disse Helio ao g1. O pesquisador afirma que essa aversão natural aos holofotes explica porque o nome de Fuzimoto permaneceu guardado no silêncio durante tanto tempo.
Acidente de Orly se tornou emblemático no mundo da aviação Reprodução/Bureau of Aircraft Accidents Archives A tragédia da Varig na França O RG-820 da Varig, operado pelo Boeing 707-345C PP-VJZ, ligava o Brasil à Europa e, naquela data, transportava 134 ocupantes, sendo 117 passageiros e 17 tripulantes, em uma rota que seguia do Galeão, no Rio de Janeiro, para Londres, com escala em Paris-Orly.
🔎 A Varig entrou em recuperação judicial em 2005 e teve a operação vendida em 2006, após anos de endividamento, custos elevados, perda de mercado e forte concorrência. A falência da antiga companhia foi decretada em 2010. A bordo estavam figuras conhecidas da vida pública brasileira, além de famílias, diplomatas e passageiros comuns.
A travessia transatlântica transcorreu normalmente; a tragédia começou apenas nos minutos finais da aproximação ao solo francês. Conforme dados levantados pelo pesquisador da Escola Superior de Guerra, Helio Carreira, por volta das 13h58, durante a aproximação para Orly, a tripulação de cabine percebeu uma fumaça densa e escura saindo do lavatório traseiro direito.
O combate com extintores começou imediatamente, mas não conteve o fogo: as chamas avançaram ocultas por trás dos painéis plásticos e das mantas de isolamento, alimentadas pela queima de fiações e resinas. Em menos de três minutos, o salão de passageiros foi tomado por gases altamente letais, como monóxido de carbono e cianeto. A fumaça invadiu a cabine de comando e criou uma condição extrema: os pilotos já não conseguiam enxergar velocímetros, altímetros ou o horizonte artificial.
Sem referências instrumentais confiáveis, decidiram abrir as janelas laterais da cabine para tentar recuperar alguma visibilidade externa. Com as janelas abertas, o vento intenso e o rugido das quatro turbinas invadiram a cabine, o que praticamente anulou a comunicação entre os tripulantes. Em meio à fuligem, Antônio Fuzimoto inclinou-se para buscar referências visuais no terreno e percebeu que a trajetória levava o Boeing 707 em direção à comuna de Saulx-les-Chartreux.
Então, curvou à esquerda, afastou o jato da cidade, contornou uma elevação e nivelou a aeronave para um pouso forçado em campo aberto, às 14h03.
A documentação técnica aponta que houve trabalho de equipe sob condições desesperadoras, mas com papéis bem definidos: Gilberto Araújo da Silva, comandante-master do voo, estava no assento direito, de onde coordenava a emergência e respondia pelo rádio enquanto as comunicações ainda eram possíveis; Antônio Fuzimoto, no assento esquerdo, sustentava fisicamente o manche, controlava as asas e conduziu o Boeing 707 até o solo.
A participação de Fuzimoto está registrada no Relatório Final do Escritório de Investigação e Análise (BEA, na sigla em francês) e foi confirmada em 1974 pelo engenheiro de voo sobrevivente Claunor Bello, que o viu, de óculos e máscara, manobrar a aeronave.
Avião se arrastou por metros em campo na França Reprodução/Bureau of Aircraft Accidents Archives O impacto e o resgate do piloto O pesquisador conta, com base no relato de um tripulante sobrevivente, que o impacto contra o terreno agrícola desacelerou a aeronave ao longo de quase 500 metros. Segundo ele, no arrasto pela vegetação, o lado esquerdo do “nariz” do Boeing colidiu contra árvores e um dos galhos invadiu a cabine de comando, atingindo o braço esquerdo e o tórax de Fuzimoto.
“O relato de Claunor Bello confirma que, mesmo com fraturas graves no braço e ferimentos profundos na mão, Fuzimoto permaneceu mantendo os comandos até a parada final da máquina”, destaca. Com o avião já parado e o avanço do fogo na fuselagem traseira, o piloto prudentino precisou abandonar a cabine pela janela lateral aberta e caiu de uma altura de quase quatro metros até o solo. Fuzimoto foi resgatado e conduzido em estado grave ao Hospital de Créteil.
Ele passou por cirurgias de urgência para reconstrução óssea e fixação de placas metálicas. Gravemente ferido, Fuzimoto foi retirado do avião pela janela esquerda; na foto, é possível ver sua máscara pendurada Acervo pessoal/Helio Carreira O piloto ficou afastado da linha de voo por um período.
Precisou passar por duas grandes intervenções cirúrgicas, enxertos e intensa recuperação motora no braço, mas não desistiu: submeteu-se a baterias rigorosas de exames médicos pelo Ministério da Aeronáutica e pelas bancas da Varig, realizou voos de observação técnica e readaptação operacional e refez treinamentos em simulador.
Em 3 de dezembro de 1974, a companhia devolveu-lhe oficialmente a homologação de comando de linha internacional, e Fuzimoto reconquistou fisicamente o direito de voltar à mesma cadeira de onde quase não saíra vivo. Em março do ano seguinte, Antônio foi promovido a comandante-master de linha internacional, o ápice da hierarquia na aviação da Varig.
“Há registros documentais e relatos preservados pela família de que, em sua primeira viagem de volta a Paris como comandante, sua aeronave foi recepcionada e escoltada por caças Mirage da Força Aérea Francesa em formação de ala, como uma homenagem militar ao aviador que evitara uma tragédia sobre a cidade de Saulx-les-Chartreux”, conta Helio. Veja a foto abaixo.
Em sua primeira viagem de volta a Paris, a aeronave de Fuzimoto foi recepcionada e escoltada por caças Mirage da Força Aérea Francesa Acervo/Família Fuzimoto “Ele continuou pilotando os jatos da Varig com o mesmo padrão técnico de excelência até sua transição regular para a aposentadoria, falecendo em 2014 e deixando um legado respeitado por toda a comunidade aeronáutica brasileira”, completa. O acidente deixou marcas na vida de Fuzimoto.
Fisicamente, carregou cicatrizes profundas no braço, mão e perna até seu falecimento. Na dimensão psicológica, optou por uma postura de respeito solene. “Nunca comercializou a tragédia, não buscou autopromoção e preferia manter em reserva os momentos mais angustiantes daquela cabine.
Lidou com o trauma por meio da dedicação à família, de uma rotina constante de natação e caminhadas e de um compromisso renovado com a excelência do voo. Orly deixou marcas indeléveis em seu corpo, mas não quebrou sua vocação”, diz. Incêndio oculto e fumaça tóxica deixaram mais de 100 mortos Reprodução/Bureau of Aircraft Accidents Archives Por que tantas pessoas morreram?
Depois do início da fumaça, a cabine tornou-se praticamente inabitável em poucos instantes. A fuligem impedia a leitura dos instrumentos e agredia olhos e vias aéreas. Fuzimoto manteve a máscara de oxigênio a 100% e os óculos de proteção, enquanto outros tripulantes que buscaram abrigo na cabine perderam proteção ou desmaiaram pela toxicidade do ar.
Com as janelas abertas, o estrondo do fluxo de ar e das turbinas praticamente anulou a comunicação verbal entre os tripulantes. A pista de Orly ainda estava a alguns quilômetros, mas o limite biológico dos ocupantes já havia sido ultrapassado e insistir em ir até o aeroporto significava arriscar a perda total da aeronave ainda em voo.
Um documento da Administração Federal de Aviação (FAA - Federal Aviation Administration, em inglês) inclui o acidente de Orly em sua tabela técnica de referência e estima uma janela de apenas sete minutos entre o início do incêndio oculto e a condição incompatível com a sobrevivência. Diante desse limite, Fuzimoto compreendeu que continuar rumo à pista poderia levar à perda total do Boeing 707 no ar; era preciso pousar imediatamente.
Acidente em 1973 deixou 123 mortos e 11 sobreviventes Reproduçã/Bureau of Aircraft Accidents Archives O relatório pericial francês do BEA (Escritório de Investigações e Análises para a Segurança da Aviação Civil Francês) concluiu que o impacto foi perfeitamente sobrevivível do ponto de vista mecânico e das desacelerações aplicadas ao corpo humano. A fuselagem suportou a frenagem na terra arroteada e manteve-se integrada.
“As 123 mortes não foram causadas pelo impacto do pouso no solo, mas sim pela asfixia precoce por inalação de monóxido de carbono e cianeto ainda no ar. Se 11 pessoas conseguiram sair com vida dos destroços, foi porque Fuzimoto conseguiu manter a aeronave nivelada e tocá-la no campo antes que a perda de sustentação se tornasse irreversível”, explica o pesquisador.
Em um documento de 1975 acessado pelo pesquisador, Fuzimoto recordou a sensação de asfixia, o bloqueio dos ponteiros luminosos pela fuligem e o momento em que teve a nítida impressão de que poderia morrer ali. “Contudo, tomou uma decisão íntima inegociável: não se entregar, não entregar a aeronave, seus colegas de tripulação e os passageiros”, compartilha Helio.
O relato do único passageiro sobrevivente Ricardo Trajano foi o único passageiro que sobreviveu Arquivo pessoal/Ricardo Trajano Entre os 11 sobreviventes estava apenas um passageiro: Ricardo Trajano. À época, o jovem de 21 anos, estudante de engenharia e também músico que morava no Rio de Janeiro, fazia sua primeira viagem ao exterior em busca de realizar o sonho de conhecer Londres, na Inglaterra, referência no rock 'n roll nos anos 1970. “Era um evento para você fazer uma viagem além de ser muito caro.
[...] Eu entrei numa loja lá em Copacabana, no Rio, e saí de lá com o meu sonho realizado, que era passagem para Londres, e era um Boeing 707 da Varig. A Varig naquele tempo era a única empresa que fazia voos internacionais”, lembra Ricardo em entrevista ao g1. Ele conta que os voos eram noturnos e seu embarque estava marcado para depois das 23h, no Rio de Janeiro.
Outra curiosidade é que os assentos não eram demarcados, eram escolhidos no momento do check-in. Ansioso, o jovem então chegou cedo ao aeroporto. Ricardo queria escolher um ponto estratégico para se sentar no avião, pois ouvia falar e lia que quando acontece um acidente aéreo, a parte traseira do avião era a mais protegida.
“Eu fiquei com isso na cabeça [...]. Então quis ser o primeiro a chegar lá, e fui o primeiro. Cheguei muito cedo e fiquei na penúltima fileira.
Interessante que, por eu ter escolhido esse lugar, foi um dos motivos que me salvou a vida”, conta. A cinco minutos de pousar em Orly, começou uma fumaça atrás de Ricardo, na direção do banheiro. O sobrevivente conta que tirou o cinto e foi para frente em direção à cabine.
Ele afirma que não viu a fumaça, e que sua ação foi por puro instinto. Ao se mover naquele momento, Ricardo levou uma bronca de um comissário (ele também sobreviveu e mora em São Paulo). “Ele pediu para eu voltar para o lugar, falou: ‘Garoto, o avião tá chegando, volta pro seu lugar’.
Eu desobedeci, continuei. Quando eu cheguei lá na frente, a fumaça já tinha tomado conta de todo o avião. Era uma fumaça preta, negra, tóxica”, recorda.
A fumaça, segundo Ricardo, tomou conta do avião e envolveu os passageiros, “sem que eles tivessem o menor poder de reação, e foi intoxicando e matando as pessoas no ar”. Ricardo ficou em pé, parado perto da divisória da cabine sem enxergar um palmo à sua frente. “Comecei a me despedir da vida.
Veio um filme na minha cabeça, em fração de segundos, minha vida inteira, minha família, meus amigos. E senti literalmente uma pessoa me puxando, me apertando, me abraçando. Não era ninguém dentro do avião.
E eu deduzi imediatamente que era a morte”, conta ao g1. O avião começou a inclinar e Ricardo caiu de bruços no chão. Foi feito o pouso de emergência em uma plantação.
“Assim que eu caí, o avião parou. Ele deslizou ainda bastante, aí assim que ele parou, eu apaguei e o teto do avião foi caindo. Você não via o fogo, mas evidentemente tinha.
E ele foi carbonizando as pessoas porque ninguém morreu por causa do pouso. O pouso foi muito bem feito”, completa. Uma das placas da fuselagem do avião que se desprendeu com o fogo caiu sobre as costas de Ricardo, que estava desmaiado nesse momento.
Segundo ele, as queimaduras sofridas foram de terceiro grau e profundas; marcas que carrega até hoje. Quando o socorro chegou, Ricardo estava perto da porta de entrada e saída da frente. Os bombeiros colocaram uma escada para retirar os corpos.
“O primeiro era o meu e viram que eu estava respirando. Me colocaram num helicóptero e eu cheguei minutos depois ao hospital, já em coma. Eu cheguei sem roupa, cheio de fuligem, muito queimado, irreconhecível”, comenta.
Nos primeiros momentos, Ricardo foi confundido com um tripulante. Assim, no Brasil, a família chorava sua morte. Ele ficou em coma por 30 horas, mas acredita que escutava a "confusão" com sua identidade e queria se comunicar.
Ao acordar, pediu uma folha de papel e escreveu o seu nome e seus dados no Brasil. “Foram na lista de tripulantes, pensando que eu fosse o tripulante, e não encontraram meu nome. E aí foram na lista de passageiros, de repente vem meu nome lá.
[...] De um velório, virou uma festa”, conta. “Meu estado era crítico. Além das queimaduras profundas, que eu tenho [marcas] até hoje e carrego como se fosse meu troféu, minha primeira radiografia de pulmão era como se fosse meu atestado de óbito.
Os médicos não me davam uma semana de vida”, recorda. Ricardo ficou dois meses no Centro de Tratamento Intensivo (CTI) em Paris e mais um mês no Rio de Janeiro, no Hospital da Beneficiência Portuguesa. Também fez yoga para ajudá-lo com a respiração.
“Meu pulmão é antes e depois do acidente”. Ricardo Trajano foi o único passageiro que sobreviveu ao acidente da Varig da França, em 1973 Arquivo pessoal/Ricardo Trajano Renascimento “Estou no lucro e no crédito da vida, há 53 anos. Quando perguntam a minha idade, eu estou hoje com 74 anos, as pessoas falam: ‘Pô, mas não parece’.
Eu falo: ‘Não, eu tenho 53 de renascimento’”, comenta. Ricardo destaca que um amigo querido, já falecido, o perguntou sobre o acidente e os momentos de sufoco. Ao falar sobre o suposto “abraço da morte” o amigo lhe disse o contrário.
“Ele colocou a mão no meu ombro, me lembro até hoje, me emociono. Ele disse: ‘Ricardo, não era a morte te abraçando, era a vida te protegendo. Era o teu anjo da guarda te dando um abraço, o teu Deus’”, recorda.
Bom humor e gratidão Ricardo conta que começou a cultivar o bom humor por causa dos profissionais de saúde que o atenderam naquela época no CTI. “Eu digo sempre que o bom humor renova a esperança, é fundamental”. Ele se recorda que uma enfermeira levava revistas e jornais, de repente, e viu uma página que falava sobre o acidente.
“Tinha uma foto minha de passaporte, uma foto numa página inteira, minha foto, dizendo assim: ‘Único passageiro sobrevivente’. [...] Fiquei extasiado com essa notícia”. A experiência ecoa na rotina de Ricardo, que por anos pensava naquele momento e se perguntava coisas como “Por que eu?”.
Há cerca de oito anos, o sobrevivente começou a compartilhar sua história em palestras e disse que começou a entender o seu propósito e sua missão: “ajudar as pessoas”. “A troca que eu tenho com as pessoas nas palestras é muito gratificante. Eu quero fazer isso pelo resto da minha vida”, afirma.
Ricardo reforça a atuação dos pilotos que evitaram uma tragédia ainda maior em terras francesas, e aos quais ele teve o prazer de conhecer após o acidente, assim como os comissários. “Eu diria que foi um pouso até cinematográfico, porque foi uma perícia incrível deles e eu devo a minha vida primeiro aos queridos Fuzimoto e Gilberto Araújo, depois aos bombeiros que me retiraram dentro daquela fornalha e depois aos médicos da França que cuidaram de mim, acreditando sempre na minha recuperação”, destaca.
Por fim, Ricardo, o sobrevivente, deixa uma mensagem: “Eu digo sempre que a vida é muito curta para ser pequena. Essa frase não é minha, é de um inglês. [...] Olhe pro lado, cara.
Você vê tanta loucura, tanta coisa. Então é por aí, eu acho. Vivam a vida, bora viver, bora construir, bora reconstruir”, finaliza.
O menino francês que viu a queda O francês Jean Moreau, neto do dono dos terrenos onde o avião fez o pouso emergencial, relatou que era um campo bem extenso com plantações de cerejeiras. Pouco tempo depois de avistar a aeronave chegando cada vez mais perto do solo, um barulho alto e chamas tomaram conta do local. O francês andava pelo local de bicicleta, ainda adolescente, quando viu a cena.
Francês relembra acidente aéreo em 1973; piloto do interior de SP evitou tragédia maior “Não vi o avião quando ele caiu no chão, mas ouvi o impacto, o estrondo, e vi a grande fumaça, a chama que saiu e fui até o local, contou em um vídeo que compõe o acervo do pesquisador e cedido ao g1. Após a queda, Jean conta que o local foi tomado por bombeiros, policiais e várias pessoas com mangueiras para tentar apagar o fogo. “Mas já era tarde.
As pessoas tinham morrido. Houve alguns sobreviventes”, disse ainda o francês. A pesquisa que resgatou a memória do aviador Helio Carreira é pesquisador do acidente de Orly e guarda uniforme de Antônio Fuzimoto Arquivo pessoal/Helio Carreira Helio Carreira é de Presidente Prudente e seu interesse pelo acidente aéreo de Orly nasceu na infância.
Seu pai, o radialista Hélio Carreiro, entrevistou Antônio Fuzimoto em 1974, na redação de um jornal local. O relato foi registrado em uma fita K7 e a gravação original é uma das buscas mais valiosas da pesquisa documental devido às "suas palavras espontâneas um ano após Orly". Anos depois, nas visitas que fazia com o filho ao aeroporto, ele contou a história do piloto prudentino que ajudou a conduzir um Boeing 707 em chamas até o solo, nos arredores de Paris.
“Saber que meu pai o conhecera e que Fuzimoto aprendera a voar naquele mesmo aeroporto transformou-o, para mim, em um herói real e despertou o desejo de preservar sua história com rigor”, conta. Desde então, há cerca de 40 anos, a história de Orly acompanha a vida de Helio. No entanto, foi no início dos anos 2000 que a pesquisa documental passou a ganhar forma estruturada e sistemática.
“Passei a cruzar, de forma sistemática, o Relatório Final do BEA francês, os arquivos regulatórios da FAA nos Estados Unidos, acervos de jornais de época, registros da Câmara Municipal de Presidente Prudente e o acervo histórico preservado, com generosidade, pela própria família Fuzimoto”, conta.
O objetivo de sua pesquisa é que as pessoas saibam que Antônio Fuzimoto esteve no assento esquerdo do Boeing 707 nos minutos decisivos de Orly e sustentou os comandos quando a aeronave já estava tomada pela fumaça e pela incerteza. “Ele colocou a vida dos passageiros, da tripulação e de pessoas em solo acima da própria segurança e, mesmo ferido, permaneceu fiel ao dever até o fim.
Para mim, sua história resume uma das maiores virtudes da aviação: a combinação de preparo técnico, coragem silenciosa e responsabilidade moral. Fuzimoto merece ocupar, na memória da aviação brasileira, o lugar de honra que conquistou nos céus”, finaliza. Acidente foi registrado em 11 de julho de 1973, na França Reprodução/Bureau of Aircraft Accidents Archives Initial plugin text Veja mais notícias em g1 Presidente Prudente e Região VÍDEOS: assista às reportagens da TV TEM



