O papa Leão XIV, de 71 anos, teve o lobo inferior do pulmão direito removido em cirurgia nesta terça-feira (13), no hospital Gemelli, em Roma, e recebeu o diagnóstico de adenocarcinoma de pulmão, segundo boletim médico do Vaticano. O tumor foi encontrado em um exame de rotina. A operação durou cerca de 90 minutos, transcorreu sem complicações, e o pontífice acordou normalmente e descansa no quarto.

A previsão é de uma semana de internação. O boletim não informa o estágio da doença, dado que orienta os próximos passos do tratamento. Um dos grandes grupos de câncer de pulmão O câncer de pulmão se divide em dois grandes grupos, de acordo com o Instituto Nacional de Câncer (Inca).

O de pequenas células cresce depressa e se espalha com facilidade, inclusive para o cérebro, e responde bem ao tratamento, mas raramente leva à cura. O de células não pequenas reúne vários subtipos, entre eles o adenocarcinoma, que nasce nas células responsáveis por produzir muco nas vias respiratórias. É o mais comum desse grupo e responde por cerca de 40% de todos os cânceres de pulmão, segundo o Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos.

O oncologista Stephen Stefani, da Americas Health Foundation, que comentou o quadro em linhas gerais e sem acompanhar o caso do papa, afirma que o adenocarcinoma é muito mais frequente em fumantes, embora também apareça em quem nunca fumou. Nesses pacientes, os tumores costumam trazer alterações genéticas específicas, e os remédios criados para atacar essas alterações funcionam bem melhor do que a quimioterapia convencional. O que leva ao tumor O cigarro é a principal causa.

A fumaça tem mais de 7 mil substâncias, ao menos 50 delas capazes de provocar câncer, e o risco cresce com a quantidade fumada e o tempo de hábito. Charuto, cigarrilha e cigarro de palha também aumentam o perigo. Nos Estados Unidos, 80% das mortes por câncer de pulmão são atribuídas ao tabagismo.

Quem não fuma também pode adoecer. Respirar a fumaça de outras pessoas, a poluição do ar, o gás radônio e o amianto são fatores conhecidos, assim como o contato prolongado no trabalho com sílica, metais como cromo, cádmio e arsênio, e a fuligem de motores a diesel, comuns em mineração, soldagem, pintura e fundição. Muitos desses agentes potencializam o efeito do cigarro quando se somam a ele.

Doenças pulmonares crônicas como o enfisema e a bronquite crônica, a tuberculose, infecções de repetição no pulmão e casos na família completam a lista. Sintomas chegam tarde O tumor costuma crescer sem dar sinais. Os de localização periférica, na borda do pulmão, geralmente não provocam sintoma respiratório algum, e por isso a maioria dos pacientes só percebe que há algo errado quando a doença já está avançada.

Nos tumores que ocupam a região central, aparecem tosse persistente, escarro com sangue, falta de ar, chiado, febre, pneumonias repetidas e rouquidão que não passa. Cansaço extenso e perda de peso sem explicação também fazem parte do quadro. Se o tumor já atingiu outras partes do corpo, os sintomas variam conforme o órgão afetado.

Como se chega ao diagnóstico A suspeita costuma nascer em uma radiografia ou tomografia de tórax, como ocorreu com o papa. Para confirmar, é preciso retirar um pedaço da lesão por biópsia, guiada por imagem ou feita por broncoscopia, exame em que uma sonda fina entra pelas vias respiratórias. Exames como o PET-CT e a ressonância do crânio medem se a doença se espalhou.

Hoje o diagnóstico também investiga as alterações moleculares do tumor, informação que ajuda a escolher o remédio mais adequado. O rastreamento com tomografia de baixa dose, que usa menos radiação que o exame comum, é indicado pelo Inca a grandes fumantes, entre 50 e 80 anos, com carga tabágica de pelo menos 20 maços-ano. Para a população em geral, não é recomendado.

Tratamento, passo a passo Quem define a estratégia é uma equipe com vários especialistas, de acordo com o tipo de tumor, o estágio e as condições do paciente. Quando possível, a cirurgia é a escolha. A retirada de um lobo inteiro do pulmão, a lobectomia, é a operação padrão, como a que o papa realizou.

Para tumores muito pequenos ou pacientes frágeis, pode-se retirar só um segmento. O Inca ressalta, porém, que apenas cerca de 15% dos casos podem ser operados no momento do diagnóstico. Quando a cirurgia não é possível, ou como complemento dela, entram a quimioterapia, a radioterapia, os remédios direcionados às alterações genéticas do tumor e a imunoterapia, que ajuda o sistema de defesa a reconhecer e atacar as células doentes.

Pacientes com tumores iniciais e sem condições de operar podem receber radioterapia de alta precisão. Nas fases avançadas, os cuidados paliativos entram cedo para aliviar dor e falta de ar. Stefani diz que, em alguns casos de tumor inicial, o médico recomenda quimioterapia ou imunoterapia depois da cirurgia para reduzir o risco de a doença voltar.

A análise do material retirado define se esse reforço é necessário. O que esperar depois O prognóstico depende sobretudo do estágio. Segundo o programa de vigilância do câncer do governo americano, o SEER, entre os pacientes diagnosticados de 2016 a 2022, 65,5% dos que tinham a doença restrita ao pulmão continuavam vivos cinco anos depois.

O índice cai para 38,2% quando o câncer já atingiu os linfonodos da região e para 10,5% quando há metástase. Os números reúnem todos os tipos de câncer de pulmão e não servem de previsão para um paciente em particular. Quando o tumor é descoberto cedo, afirma Stefani, a chance de cura é altíssima.

Mesmo depois de uma cirurgia bem-sucedida, o acompanhamento é longo. O Inca recomenda exames de imagem a cada três meses nos dois primeiros anos e a cada seis meses até o quinto ano, porque a maior parte dos retornos da doença acontece nesse período, e depois tomografia anual, já que o risco de um novo tumor persiste. Para o papa, o resultado da análise do tumor retirado vai indicar em qual cenário ele se encontra.