Arte tumular no Cemitério da Saudade revela a história de Sorocaba Nos cemitérios, ela está em tudo: das cruzes aos mausoléus, das gavetas aos epitáfios. A arte tumular é o registro de um tempo e está muito longe de ser apenas a representação do fim da vida. Trata-se de um conjunto de elementos que revelam história, sagrado, luto e diferentes sentimentos sociais.
Como poucos no interior paulista, o Cemitério da Saudade, em Sorocaba (SP), inaugurado em 1863, funciona como um museu a céu aberto que preserva a memória econômica e a sensibilidade artística regional ao longo de mais de 160 anos. 📲 Participe do canal do g1 Sorocaba e Jundiaí no WhatsApp No local, que já tem mais de 160 anos de existência, o historiador José Rubens Incao conversou com o g1 na sexta-feira (30) sobre a arquitetura e a arte do primeiro cemitério sorocabano.
Arte tumular resgata história e revela simbolismos sobre a vida e a morte em Sorocaba (SP) Marcel Scinocca/g1 Em vídeo, ele explica parte das obras do acervo vai desde estruturas pioneiras do século XIX, com cercados de ferro originais, até imponentes jazigos de mármore e capelas monumentais com vitrais de famílias tradicionais da indústria local, como os Scarpa. Além do aspecto aristocrático, o cemitério é marcado pela fé popular.
O endereço abriga sepulturas que viraram pontos de peregrinação, como o jazigo do líder religioso João de Camargo e a capela em formato de casa de bonecas da Menina Julieta Chaves, coberta por brinquedos e ex-votos deixados por fiéis.
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"É um registro. Não só da mão do artesão, do artista que esculpe uma figura de um anjo ou faz uma parede, uma pequena capela, o revestimento. Mostra o engenho e a arte da mão do povo brasileiro e dos imigrantes que também trabalharam.
Então, tem essa parte do artista, da história, da simbologia. Com o passar do tempo a gente vai perdendo o significado, mas elas continuam alertando, dando sinais de esperança, de vida e de um passado que nós vamos perdendo o vínculo, mas que somos portadores", explicou o historiador. Segundo o historiador, a composição tumular funciona de forma integrada, desde a alvenaria básica até as grandes ornamentações: "A disposição, as gavetas, as portas, os fechos, tudo tem a ver, todo um conjunto.
É como uma casa que tem um quadro na parede, mas todo o entorno deste quadro que compõe a casa faz parte desta arte. Desde o mais simples, que hoje é uma pequena cova no chão, um pequeno jardim, flores já desbotadas, até os grandes monumentos, os grandes mausoléus, tudo representa lições do passado e esperança de uma vida futura." Incao lembrou que a confecção dessas obras dependia de artesãos especializados, profissão que praticamente desapareceu.
Com a imigração italiana, profissionais vinham com catálogos para que as famílias escolhessem dimensões, esculturas e pedras. Elementos locais também compunham os túmulos, como cruzes de ferro forjadas na Real Fábrica de Ferro de São João do Ipanema, em Iperó (SP), e tintas metálicas laváveis. "Os túmulos, além da arte tumular, falam muito de costumes, de crenças, de modelos, de padrões e de preconceitos também", ressaltou Incao.
Arte tumular resgata história e revela simbolismos sobre a vida e a morte em Sorocaba (SP) Marcel Scinocca/g1 Saques e destruição da memória O avanço da degradação e a ação de criminosos dentro do Cemitério da Saudade preocupam historiadores e moradores de Sorocaba. Peças de valor artístico e afetivo são alvos recorrentes de ladrões de metal. "É toda uma violência.
Violência porque é covardia roubar sem o direito de defesa, sem o direito de resguardo. Aquele que rouba, aquele que furta na escuridão que seja, e também aquele que compra esse material sabendo da procedência. Mas não só o furto como crime: é o furto à nossa memória afetiva, o furto ao respeito às famílias que se dedicaram à construção e à memória desse túmulo", desabafou José Rubens.
Ao falar sobre a mensagem que mais o marca no local, o historiador citou uma inscrição fúnebre: "Aquele epitáfio me calou desde a primeira vez que li: 'Os mortos não morrem quando morrem, morrem quando são esquecidos'. O que é que a gente está abrindo mão das nossas vidas? Estamos matando a nossa vida, as nossas esperanças, os nossos valores.
Nós matamos nossa vida em vida." Perda de história Arte tumular resgata história e revela simbolismos sobre a vida e a morte em Sorocaba (SP) Marcel Scinocca/g1 O historiador, pesquisador e professor Carlos Carvalho Cavalheiro também lembra e alerta que o Cemitério da Saudade sofre com a perda contínua de peças em bronze. Um dos exemplos citados por ele é o túmulo da menina Dinorah Ciardi, que teve o conjunto escultórico furtado.
Na composição original, Jesus acolhia a criança enquanto um anjo alcançava sua bolsa escolar. Cavalheiro explica que cada ornamento esculpido nos túmulos antigos carrega mensagens diretas sobre as convicções de quem viveu naquela época. Conforme ele, o pietá é a imagem da Virgem Maria com Jesus nos braços demonstra o desejo de acolhimento da alma no Paraíso.
Já a coluna partida ou cortada indica a interrupção de uma linhagem familiar, apontando que ali repousa o último membro daquela família. O anjo da dor ou em constrição traduz a busca e a esperança de salvação, sem a certeza absoluta do destino da alma e o anjo apontando para o céu: expressa a certeza da vitória sobre a morte e a garantia de salvação. Ainda conforme ele, o vaso vazio representa o corpo desprovido da alma e a pira funerária (vaso com chamas) simboliza a imortalidade.
De acordo com Cavalheiro, os chamados cemitérios-parques contemporâneos priorizam gramados uniformes sem elementos visuais distintivos, o que nivela as diferenças socioeconômicas visíveis. Em contrapartida, os cemitérios tradicionais preservam uma narrativa visual insubstituível. Isso reforça o valor histórico da arte tumular dos cemitérios mais antigos, pois representam uma "forma narrativa da mentalidade de nossos antepassados", conclui o pesquisador.
Elementos que compõem a arte tumular A arte nos cemitérios organiza-se em diferentes estruturas, esculturas e peças funcionais. Elas são as seguintes: 1. Arquitetura e estruturas Túmulos e jazigos: construções erguidas sobre as sepulturas, variando de modelos rasos no solo a compartimentos familiares subterrâneos ou verticais.
Mausoléus: edificações monumentais reservadas a personalidades ou famílias abastadas. Estelas: monólitos de pedra verticais com gravações e relevos. Sarcófagos: urnas de pedra ou metal visíveis em capelas.
Cenotáfios: memoriais erguidos em homenagem a falecidos sepultados em outros locais ou não localizados. 2. Estatuária e alegorias Anjos: figuras que comunicam luto (quando choram), triunfo espiritual (quando apontam para o céu) ou o Juízo Final (quando portam trombetas).
Alegorias: representações femininas de virtudes como Fé, Esperança, Caridade e Saudade, além de pranteadoras. Bustos, efígies e imagens sacras: reproduções fisionômicas do falecido ou representações de santos e passagens bíblicas. Arte tumular resgata história e revela simbolismos sobre a vida e a morte em Sorocaba (SP) Marcel Scinocca/g1 3.
Acessórios e ornamentos Crucifixos: símbolos universais cristãos forjados em ferro, pedra ou bronze. Floreiras e vasos: peças fixadas nas lápides associadas à transitoriedade da existência. Lanternas: abrigos de metal e vidro para chamas, aludindo à luz eterna.
Epitáfios e fotocerâmicas: placas de identificação com mensagens biográficas e retratos esmaltados. Argolas e puxadores: peças em metal trabalhado que uniam função prática e adorno. 4.
Ícones e significados gráficos Tocha invertida: vida extinta. Ampulheta: brevidade e passagem inexorável do tempo (tempus fugit). Coroas de louros: triunfo e conquistas alcançadas.
Elos partidos: quebra do ciclo familiar ou desprendimento do corpo físico. Corações: eternidade do afeto e consagração espiritual.
Arte tumular resgata história e revela simbolismos sobre a vida e a morte em Sorocaba (SP) Marcel Scinocca/g1 Arte tumular resgata história e revela simbolismos sobre a vida e a morte em Sorocaba (SP) Marcel Scinocca/g1 Arte tumular resgata história e revela simbolismos sobre a vida e a morte em Sorocaba (SP) Marcel Scinocca/g1 Veja mais notícias da região no g1 Sorocaba e Jundiaí Initial plugin text VÍDEOS: assista às reportagens da TV TEM



