Rascunho da redação do Enem da estudante Caroline Souza, que tirou nota mil, em Goiânia, no Enem 2023 Caroline Souza/Arquivo Pessoal Com menos de um mês até o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2026, algumas coisas precisam ser feitas para garantir o melhor desempenho possível no exame e, especialmente, na redação. Estar familiarizado com a estrutura e ter dicas estratégicas para mandar bem é uma delas, mas também é preciso saber o que NÃO fazer.
Além de revisar os conteúdos e treinar a escrita, também é importante ficar atento a erros que podem comprometer a nota da redação — e, em situações mais graves, fazer com que o texto receba zero. A redação é avaliada em cinco competências, cada uma com pontuação de até 200 pontos.
Para chegar à nota máxima, não basta simplesmente escrever sem erros gramaticais: é preciso compreender o tema proposto, defender um ponto de vista com argumentos consistentes, articular as ideias e apresentar uma proposta de intervenção para o problema discutido, respeitando os direitos humanos. Mas quais deslizes podem custar pontos? E quais são as falhas que levam à anulação do texto?
A pedido do g1, duas especialistas em redação explicam os principais cuidados para a reta final de preparação e dão dicas para evitar erros na prova. Agora no g1 O que é avaliado na redação do Enem De acordo com a Cartilha do Participante do Enem 2026, do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), o candidato deve escrever um texto dissertativo-argumentativo, na modalidade formal da língua portuguesa, sobre um tema de ordem social, científica, cultural ou política.
Na prática, isso significa apresentar uma tese — o ponto de vista que será defendido — e sustentá-la com argumentos organizados e relacionados ao tema. A redação também deve trazer uma proposta de intervenção para o problema discutido, que respeite os direitos humanos. A correção é dividida em cinco competências, que valem até 200 pontos cada: Competência 1 — Domínio da escrita formal: avalia o uso da norma-padrão da língua portuguesa, incluindo aspectos gramaticais, ortográficos e de construção das frases.
Competência 2 — Compreensão do tema: verifica se o candidato entendeu a proposta, desenvolveu o recorte temático solicitado e utilizou conhecimentos de outras áreas de forma pertinente, mantendo a estrutura dissertativo-argumentativa. Competência 3 — Organização da argumentação: avalia a seleção e a organização de informações, fatos e argumentos usados para defender o ponto de vista.
Competência 4 — Coesão textual: observa o uso de recursos linguísticos que conectam as ideias, os períodos e os parágrafos, garantindo a progressão do texto. Competência 5 — Proposta de intervenção: analisa a apresentação de uma solução para o problema discutido, com elementos que expliquem como ela será colocada em prática e respeito aos direitos humanos. O que a redação precisa ter e o que evitar SIM: Apresentar uma tese clara e desenvolver argumentos relacionados ao tema.
Organizar as ideias em uma sequência lógica, com introdução, desenvolvimento e conclusão. Usar repertório sociocultural pertinente, que ajude a explicar ou sustentar a argumentação. Apresentar uma proposta de intervenção relacionada ao problema discutido.
Empregar a linguagem formal e recursos de coesão de maneira adequada. NÃO: Escrever sobre o assunto geral sem abordar o recorte específico da proposta. Substituir a argumentação por uma sequência de citações ou referências decoradas.
Usar conectivos sem que eles estabeleçam uma relação lógica entre as ideias. Inserir trechos sem relação com o tema ou abandonar a estrutura dissertativo-argumentativa. Lucas Rodrigues tirou nota mil na redação do Enem 2025 Montagem/g1 O que faz a redação perder pontos Nem todo erro leva à nota zero.
Em muitos casos, a redação é corrigida normalmente, mas o candidato perde pontos em uma ou mais competências. Isabela Canella, professora de redação da escola SEB Lafaiete, destaca quatro aspectos que merecem atenção: o desenvolvimento do tema, o uso do repertório sociocultural, a coesão e a proposta de intervenção.
E também: Abordar o assunto, mas não o recorte pedido O chamado tangenciamento do tema ocorre quando o estudante fala sobre o assunto geral da proposta, mas não desenvolve exatamente o problema apresentado pela banca. Se o tema tratar, por exemplo, da evasão escolar na infância, falar sobre a importância da educação de maneira ampla não é suficiente. É necessário discutir a saída de crianças da escola e os aspectos específicos solicitados no enunciado.
Silvia Maria Brandão, especialista em Soluções Educacionais na Arco Educação e doutora em Linguística e Língua Portuguesa pela Unesp, explica que esse problema pode comprometer diferentes competências, porque limita o desenvolvimento do tema, a argumentação e a proposta de intervenção. A recomendação das especialistas é ler atentamente a frase temática e garantir que o texto permaneça conectado a ela do início ao fim.
Isabela sugere, inclusive, utilizar as palavras do tema já na introdução, de forma coerente, como uma maneira de reduzir o risco de desvio. Usar repertórios de bolso sem relação com o tema Citações de filósofos, referências históricas, livros e filmes podem enriquecer a redação. O problema aparece quando o candidato memoriza referências para encaixá-las em qualquer proposta, sem explicar a relação delas com o assunto discutido.
Esse recurso, conhecido como repertório de bolso, pode prejudicar o desenvolvimento do texto em vez de fortalecê-lo. Desde a última edição, este é um ponto que tem feito a nota de muitas redações despencar. A orientação é priorizar conhecimentos que ajudem a sustentar a tese e explicar como a referência escolhida se relaciona com o argumento.
Uma citação famosa, sozinha, não substitui a análise do problema. Usar conectivos de maneira inadequada Expressões como “portanto”, “além disso”, “entretanto” e “por consequência” ajudam a conectar as ideias, mas precisam ser usadas de acordo com o sentido pretendido. Isabela alerta que a coesão não depende apenas da quantidade de conectivos.
É necessário escolher a expressão que estabelece a relação correta entre as partes do texto. Usar “portanto” para introduzir uma ideia que não decorre da anterior, por exemplo, pode prejudicar a compreensão. O candidato deve observar se os conectivos realmente ajudam a construir a linha de raciocínio.
Deixar elementos da proposta de intervenção pouco claros A proposta de intervenção precisa apresentar uma solução para o problema discutido. Para isso, é importante deixar claros cinco elementos: Agente: quem será responsável pela ação. Ação: o que será feito.
Meio ou modo: como a medida será realizada. Finalidade ou efeito: qual resultado se pretende alcançar. Detalhamento: uma explicação adicional de um desses elementos.
Deixar de apresentar algum dos 5 elementos obrigatórios na proposta de intervenção não faz o estudante necessariamente perder [os 200 pontos da competência], mas ele deixa de ganhar 40 pontos a cada item faltante entre os 5 previstos. Por isso, a recomendação é conferir se a proposta responde a perguntas básicas: quem vai agir, o que fará, como, com qual objetivo e com quais detalhes?
Documentos mostram mudança de critérios na correção da redação do Enem 2025 O que faz a redação ser zerada O Inep prevê situações específicas em que a redação pode receber nota zero. Algumas estão relacionadas ao conteúdo e à estrutura do texto; outras envolvem o preenchimento da folha oficial ou a inclusão de elementos que não fazem parte da produção textual. Veja os principais casos: Fugir totalmente do tema: acontece quando o candidato não aborda nem mesmo o assunto geral proposto pela banca.
Não escrever um texto dissertativo-argumentativo: produzir integralmente um texto de outro gênero, como uma poesia ou uma narração, não atende à estrutura exigida. Entregar a folha de redação em branco: mesmo que o rascunho esteja preenchido, é necessário transcrever o texto para a folha oficial. Escrever um texto insuficiente: redações com até sete linhas manuscritas recebem nota zero por não atingirem a quantidade mínima exigida para avaliação.
Copiar os textos motivadores sem desenvolver uma produção autoral suficiente: as linhas copiadas da proposta ou do caderno de questões não contam para o mínimo exigido. Se o texto não atingir o número mínimo de linhas autorais, poderá receber zero. Incluir desenhos, sinais gráficos ou outros elementos usados para anular a prova: carinhas, corações, estrelas, números soltos e rabiscos sem função textual podem comprometer a redação.
Inserir partes deliberadamente desconectadas do tema: receitas, letras de música, mensagens ao corretor, slogans políticos, orações ou piadas sem relação com a argumentação podem levar à anulação. Incluir impropérios, xingamentos ou ofensas: esse tipo de conteúdo pode resultar em nota zero. Atenção também à identificação: o candidato não deve assinar a redação nem inserir nome, rubrica ou qualquer outra marca de identificação no espaço reservado ao texto.
Isso pode levar à anulação. Silvia destaca que não basta mencionar o assunto geral em algum trecho isolado: é necessário desenvolver uma discussão compatível com a proposta. Ela também recomenda evitar mudanças bruscas de foco que levem o texto para assuntos sem vínculo com a argumentação.
Outro cuidado é o gerenciamento do tempo. Muitos alunos fazem o rascunho e, por mau gerenciamento do tempo, não conseguem transcrever a redação para a folha oficial e, com isso, escrevem menos do que o pedido e podem zerar o texto. A redação precisa ser passada a limpo dentro do tempo disponível, e deixar essa etapa para os últimos minutos aumenta o risco de entregar um texto incompleto.
Como evitar perder pontos Na reta final, a melhor estratégia é treinar a leitura do tema, planejar a estrutura do texto e reservar tempo para a revisão. As orientações das especialistas podem ser resumidas em cinco cuidados: Leia o tema e identifique o recorte específico. Antes de começar, destaque as palavras-chave da proposta e pense no problema que precisa ser discutido.
Não confunda o assunto geral com a questão específica apresentada pela banca. Planeje a argumentação antes de escrever. Defina a tese, escolha os argumentos que vão sustentá-la e organize a sequência dos parágrafos.
Para Silvia, um bom projeto de texto ajuda a manter a discussão no foco e evita que a redação fique circular. Use referências para explicar, não apenas para impressionar. Em vez de decorar citações para encaixar em qualquer tema, selecione conhecimentos que ajudem a desenvolver o raciocínio.
Explique a relação entre a referência e o argumento apresentado. Confira a lógica das conexões e a proposta de intervenção. Verifique se os conectivos expressam a relação pretendida e se a solução proposta responde ao problema discutido.
Na conclusão, confira se estão claros o agente, a ação, o meio, a finalidade e o detalhamento. Reserve tempo para passar o texto a limpo e revisar. Não basta terminar o rascunho: é necessário transcrevê-lo para a folha oficial.
Na revisão, observe erros de gramática, palavras repetidas, trechos pouco claros, mudanças de assunto e eventuais elementos que não fazem parte da redação. A última dica é não tentar encaixar uma estrutura decorada a qualquer custo. Um texto bem organizado precisa responder ao tema que efetivamente caiu na prova.
Na redação do Enem, cumprir as regras formais é essencial, mas desenvolver uma argumentação pertinente, coerente e bem articulada é o que permite demonstrar as competências exigidas pela avaliação.



