Professora do interior de SP vira finalista de prêmio nacional Há 19 anos, Daniela Aparecida Ferreira Arfelli atravessa praticamente o mesmo caminho até a Escola Estadual Assentamento Santa Clara, em Mirante do Paranapanema (SP). Foi ali, em uma comunidade formada por famílias assentadas e acampadas, que a professora construiu vínculos com estudantes, famílias e colegas e desenvolveu um trabalho que agora ganhou reconhecimento nacional.
📲 Participe do canal do g1 Presidente Prudente e Região no WhatsApp Daniela está entre os 12 finalistas da 28ª edição do Prêmio Educador Nota 10, na categoria Direitos Humanos, com o projeto: "Vozes em Territórios de Luta: Práticas de Letramento com Estudantes Acampados e Assentados". A iniciativa trabalha leitura, escrita e produção literária com estudantes do Ensino Fundamental à Educação de Jovens e Adultos (EJA).
Ela parte das próprias vivências dos alunos para mostrar que aquilo que eles vivem, sentem e conhecem pode se transformar em histórias que merecem ser lidas. Professora de escola em assentamento de Mirante do Paranapanema (SP) é finalista de prêmio nacional de educação Daniel Arfelli/Arquivo Pessoal Para alcançar a final, a professora passou por entrevistas, defendeu a metodologia pedagógica e enviou registros das produções de texto feitas em sala de aula.
Promovido pelo Instituto Somos e pelo Ministério da Cultura, o prêmio anunciará os vencedores em 10 de novembro, em cerimônia na Pinacoteca de São Paulo. Os três primeiros colocados de cada categoria receberão premiações em dinheiro entre R$ 15 mil e R$ 25 mil. "Essa indicação mostra aos nossos estudantes que o lugar onde vivem não determina até onde podem chegar.
Muitos vivem em barracos de lona, mas isso não limita seus sonhos", destaca a professora Daniela. LEIA TAMBÉM Canhotos adaptam instrumentos e aprendem a tocar viola em projeto Envelhecimento, agrotóxicos e hipertensão: estudo premiado alerta para o adoecimento silencioso de trabalhadores rurais Menino de 3 anos ganha surpresa de policiais no aniversário após mobilização na internet Identificação A relação de Daniela com a educação começou ainda na infância.
Criada na zona rural, ela conta que frequentava uma pequena escola que funcionava no sítio do pai quando tinha apenas quatro anos. A experiência também ajuda a explicar a identificação dela com a comunidade onde trabalha atualmente. “Como também cresci na zona rural, eu me identifico com essa realidade e me sinto muito bem acolhida pela comunidade.
É um lugar onde me sinto bem, onde construí vínculos e onde tenho muito carinho pelas pessoas. Trabalhar nessa escola é, para mim, como reencontrar um pouco das minhas próprias raízes”, explicou a professora. Na Escola Santa Clara, Daniela passou pela sala de aula e, há sete anos, atua na gestão pedagógica.
Foi nesse período, acompanhando mais de perto as aulas, que percebeu uma dificuldade que ajudou a dar origem ao projeto finalista. "Eu amo trabalhar nessa escola. Durante esse tempo, criei um vínculo muito grande com os estudantes, com as famílias e com toda a comunidade.
A Escola Santa Clara faz parte da minha vida e da educadora que eu sou hoje", disse Daniela. Professora de escola em assentamento de Mirante do Paranapanema (SP) é finalista de prêmio nacional de educação Daniela Arfelli/Arquivo Pessoal 'Escrita ganhou sentido' O trabalho começou a partir do Jornal Santa Clara Notícias, publicação produzida pela escola há mais de uma década e que já chegou à 14ª edição.
Ao acompanhar a produção dos estudantes, Daniela percebeu que muitos escreviam apenas para cumprir uma atividade escolar. A partir daí, passou a desenvolver workshops de escrita com professores, funcionários, gestores e alunos. A proposta é trabalhar diferentes gêneros, como contos, crônicas, poemas e relatos de experiências de vida.
Mais do que ensinar regras de escrita, o projeto busca fazer com que os estudantes encontrem sentido naquilo que produzem. "A intenção era melhorar a escrita, mas também ajudá-los a perceber que suas histórias são importantes e merecem ser contadas. Assim, eles deixaram de escrever apenas para cumprir uma atividade e passaram a se reconhecer como autores.
A escrita ganhou sentido, leitores e uma função social”, contou Daniela. O projeto reúne estudantes de diferentes idades e etapas de ensino. Nas turmas de alfabetização, são trabalhadas releituras e produções coletivas.
Com adolescentes e jovens, entram contos e crônicas. Na EJA, a proposta inclui a chamada "escrevivência", baseada em memórias e experiências de vida. Para Daniela, um dos desafios é justamente conseguir fazer com que todos participem, respeitando diferentes níveis de aprendizagem: “Mais do que ensinar a ler e a escrever, o projeto cria oportunidades para que toda a comunidade se reconheça como autora de sua própria história”, diz.
Professora de escola em assentamento de Mirante do Paranapanema (SP) é finalista de prêmio nacional de educação Daniel Arfelli/Arquivo Pessoal 'As histórias que moram em nós' A ideia de publicar os textos surgiu depois que a escola passou a produzir e divulgar as atividades dos estudantes em diferentes espaços. Os textos jornalísticos já eram publicados no jornal da escola, mas Daniela e a diretora Cristiane Andreia de Oliveira perceberam que as produções literárias também poderiam alcançar outros leitores.
Foi assim que os contos, crônicas, poemas e relatos produzidos nos workshops começaram a ser reunidos em antologias. A escola já publicou três livros coletivos e prepara uma quarta publicação, intitulada “As histórias que moram em nós”. O processo envolve os próprios autores desde o primeiro esboço até a publicação.
Os textos passam por leitura, compartilhamento e revisão, com participação de colegas e professores. Para Daniela, o momento em que os estudantes recebem o livro e encontram o próprio nome entre os autores ajuda a concretizar a proposta do projeto. Ela se recorda especialmente de um estudante da EJA que chorou ao ver seu relato de vida publicado.
“Foi muito bonito, porque ele estava vendo a própria história valorizada e reconhecida. Naquele momento, eu percebi que para aquelas pessoas suas histórias importam”, relatou Daniela. Professora de escola em assentamento de Mirante do Paranapanema (SP) é finalista de prêmio nacional de educação Daniela Arfelli/Arquivo Pessoal ‘Ato de coragem’ Ao longo do projeto, Daniela relatou ter observado mudanças não apenas no desempenho de leitura e escrita, mas também na participação dos estudantes.
Segundo ela, os alunos passaram a demonstrar mais confiança para escrever, compartilhar produções e participar de atividades. Entre os resultados, ela cita estudantes que se destacaram em concursos literários, alunos alfabetizados na idade certa e avanços na leitura e na escrita entre participantes da EJA. Uma das estudantes citadas por Daniela é Kathleen, da 2ª série, que ficou em primeiro lugar em um concurso literário da Associação de Escritores e Ilustradores de Teodoro Sampaio (AEITS).
Ela também destaca Catarina, que ainda no 4º ano já havia produzido mais de quatro textos para a antologia da escola. Para Daniela, essas experiências ajudam a mostrar que a escrita pode ocupar um espaço maior do que o de uma atividade escolar. “Para mim, uma das mudanças mais bonitas é vê-los percebendo que são capazes, que suas histórias têm valor e que seus textos podem ser lidos por outras pessoas”, relatou a professora.
É nesse contexto que ela costuma repetir uma frase durante os workshops: “Escrever é um ato de coragem”. Professora de escola em assentamento de Mirante do Paranapanema (SP) é finalista de prêmio nacional de educação Daniel Arfelli/Arquivo Pessoal *Colaborou sob supervisão de Stephanie Fonseca Initial plugin text Veja mais notícias no g1 Presidente Prudente e Região VÍDEOS: assista às reportagens da TV TEM



