Polo Industrial de Manaus Divulgação Antes de produzir, uma das questões fundamentais é analisar como uma indústria irá receber insumos e entregar mercadorias. Essa equação é importante porque a logística local precisa acompanhar os planos de expansão do Polo Industrial de Manaus (PIM), com a mesma atenção dedicada às linhas de montagem. Um projeto de celulose em Alto Araguaia, no sul de Mato Grosso, oferece um ponto de partida para essa discussão.
O município fica na Amazônia Legal, mas está inserido no bioma Cerrado, uma distinção entre o recorte administrativo da região e suas características ambientais. A Euca Energy voltou ao noticiário neste mês com previsões de investimento de aproximadamente US$ 2 bilhões e capacidade de 2 milhões de toneladas anuais. As publicações mencionam geração de energia, ramal ferroviário e terminal de cargas.
O novo cronograma, porém, ainda carece de confirmação pública direta do empreendedor. O empreendimento tem um histórico anterior. Em 2019, a Prefeitura de Alto Araguaia informou a obtenção da licença prévia e divulgou investimento estimado em R$ 9,5 bilhões.
Naquele ano, também apresentou as conexões rodoviárias e ferroviárias com o Porto de Santos como vantagens para atrair indústrias. Isso demonstra a importância atribuída ao escoamento, mas não comprova que a Euca tenha assegurado toda a operação até o porto paulista. O caso interessa ao Amazonas porque a viabilidade industrial depende da articulação entre fábrica, energia, transporte e mercado.
Equipamentos modernos e demanda pelos produtos precisam ser acompanhados de regularidade no abastecimento e na distribuição. O custo da imprevisibilidade O PIM faturou R$ 227,67 bilhões em 2025 e destina sua produção majoritariamente ao mercado brasileiro, segundo a Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa). Componentes e matérias-primas chegam a Manaus, enquanto produtos acabados seguem para os centros consumidores, o que exige eficiência nos dois sentidos.
Quando uma rota perde capacidade, o problema ultrapassa o frete. A indústria pode precisar antecipar compras, manter estoques maiores, reorganizar entregas ou recorrer a alternativas mais caras. O capital mobilizado para enfrentar a incerteza deixa de estar disponível para outras necessidades do negócio.
Essa pressão torna a previsibilidade um fator de competitividade. Mudanças frequentes de prazo, capacidade e despesa dificultam o planejamento, especialmente quando compromissos comerciais já foram assumidos. Os investimentos já estão acontecendo O setor logístico amazonense tem respondido a esses desafios.
O Grupo Chibatão mobilizou um píer flutuante para Itacoatiara como alternativa às restrições de navegação durante a estiagem. O Super Terminais também estruturou operações no município e vem investindo em modernização e capacidade operacional. Na armazenagem e no apoio aduaneiro, a Aurora EADI amplia investimentos em infraestrutura, segurança e tecnologia, buscando oferecer mais flexibilidade ao planejamento das indústrias.
Aurora EADI e Super Terminais integram o mesmo grupo econômico e atuam em etapas complementares da cadeia logística. Esse cenário mostra que há empresas aplicando recursos para preservar o fluxo de cargas e acompanhar a demanda regional. Reconhecer esse esforço é necessário para dimensionar corretamente o problema: os gargalos persistem mesmo com iniciativas privadas relevantes.
A coordenação também já ocorre. Em encontro realizado em 1º de outubro, o Centro da Indústria do Estado do Amazonas (Cieam) reuniu operadores portuários, administração aeroportuária e Receita Federal para discutir contingências, transbordos em Itacoatiara e transporte aéreo para cargas de alto valor e insumos urgentes. A questão é transformar essa articulação em continuidade, com responsabilidades definidas e planejamento que acompanhe tanto o comportamento dos rios quanto o crescimento industrial.
Infraestrutura como política industrial A comparação com Mato Grosso exige cuidado. Celulose e produtos eletroeletrônicos têm características, mercados e necessidades de transporte diferentes. Um corredor ferroviário para grandes volumes de celulose não constitui solução automática para Manaus.
A lição está em planejar a produção junto com as condições de abastecimento e distribuição. No Amazonas, investimentos em terminais, equipamentos e armazenagem precisam ser complementados por ações nas vias de acesso, manutenção e sinalização dos canais de navegação, informação hidrológica e agilidade aduaneira. Novas rotas também exigem avaliação econômica, operacional e ambiental.
Uma empresa pode ampliar seu terminal e modernizar equipamentos, mas a capacidade de utilizar essa estrutura continua condicionada às condições de acesso e navegação. Por isso, os investimentos privados e a atuação pública precisam avançar de forma complementar. A expansão do PIM deve entrar nessa conta desde o início, pois atrair empresas e ampliar fábricas aumenta a demanda sobre os sistemas que as abastecem.
Então, é preciso garantir que os avanços logísticos já em curso tenham escala e continuidade para sustentar esse crescimento. A pergunta central não é apenas quantas fábricas Manaus consegue atrair, mas, sobretudo, com que regularidade, custo e segurança elas conseguirão produzir e atender seus mercados. Os investimentos realizados pelo setor logístico são parte dessa resposta; a infraestrutura compartilhada e a coordenação permanente precisam completar esse caminho.
Cristina Monte é jornalista, colunista e analista de negócios, com atuação na cobertura de indústria, inovação e desenvolvimento econômico na Amazônia.



