'Treta' ou predação? Cangambá é flagrado mordendo cauda de jiboia na copa de árvore Um vídeo que mostra um cangambá (Conepatus semistriatus) mordendo e puxando uma jiboia (Boa constrictor) na copa de uma árvore chamou a atenção nas redes sociais. O flagrante ocorreu no município de Orocó (PE).
Nas imagens, o mamífero aparece atacando a serpente entre os galhos e puxando-a com a mordida. Apesar de possível, esse tipo de interação não é comum de ser observado. Os cangambás são animais onívoros e possuem uma dieta bastante variada.
Insetos e outros invertebrados estão entre os alimentos mais comuns, mas eles também podem consumir pequenos vertebrados, como sapos, roedores, ovos e até serpentes. 'Treta' ou predação? Cangambá é flagrado mordendo cauda de jiboia na copa de árvore Redes Sociais Por que atacou?
Segundo Ana Carolina Loss, especialista em mamíferos e pesquisadora do Instituto Nacional da Mata Atlântica, as cobras fazem parte da alimentação dos cangambás, mas geralmente são indivíduos pequenos. “Esta jiboia me parece muito grande para servir de alimento para este cangambá. Acho mais possível que o vídeo esteja registrando uma disputa por alimento, ou seja, a cobra e o cangambá estavam competindo pela mesma fonte de alimento, do que uma predação da cobra pelo cangambá”, comenta.
A pesquisadora levanta a hipótese de que os dois animais tenham se encontrado por estarem atrás do mesmo recurso. A possibilidade de uma disputa é relevante porque a alimentação dos cangambás varia conforme o que está disponível no ambiente e a época do ano. Outro ponto importante é o local do flagrante.
Embora os cangambás consigam subir em árvores, esse não é um comportamento típico da espécie. O cangambá tem dieta variada russnamitz/iNaturalist De acordo com Ana Carolina, eles podem utilizar a vegetação como forma de defesa, para fugir de um predador ou afastar um possível competidor — comportamento que também poderia ajudar a explicar a presença do animal na copa da árvore.
A bióloga Gitana Nunes Cavalcanti, mestre em Ecologia, Conservação e Manejo da Vida Silvestre pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), também ressalta que a dieta desses animais ainda é pouco estudada, principalmente no Brasil. Embora existam registros de consumo de serpentes, elas não parecem constituir um item alimentar habitual ou importante para a espécie. “Uma jiboia seria uma presa bastante incomum e excepcional, especialmente considerando o tamanho que uma jiboia adulta pode atingir”, explica.
De acordo com Gitana, considerando os principais alimentos dos cangambás, é difícil afirmar que o indivíduo do vídeo estava tentando comer uma serpente tão grande. Jiboia não é uma presa comum da espécie rafaelduarte/iNaturalist Caçador do chão O comportamento registrado no vídeo também chama atenção pelo local onde os animais estavam. O cangambá é predominantemente terrestre e não é considerado uma espécie arborícola.
Seu principal ambiente de forrageamento é o solo, onde utiliza o olfato e as garras para encontrar e escavar locais onde as presas estão escondidas. A jiboia, por outro lado, utiliza a vegetação com frequência. Segundo Karina Banci, herpetóloga — bióloga especialista em répteis e anfíbios — e pesquisadora do Laboratório de Ecologia e Evolução do Instituto Butantan, tanto indivíduos adultos quanto filhotes apresentam hábitos arborícolas e utilizam bastante a vegetação, inclusive os estratos mais altos.
Jiboia poderia matar o cangambá? Jiboia é uma serpente de médio/grande porte w_endo/iNaturalist Embora o cangambá consiga atacar serpentes, uma jiboia também possui boa capacidade de defesa. A espécie utiliza a constrição — método letal usado para imobilizar e matar suas presas — e poderia, em determinadas circunstâncias, ferir ou até matar um cangambá.
“Caso (a jiboia) conseguisse realizar uma mordida e enrolar-se adequadamente ao redor do corpo dele, ela poderia matá-lo”, confirma Gitana. Por isso, a especialista recomenda cautela ao interpretar o vídeo como uma demonstração de força de qualquer um dos animais. Para ela, caso o mamífero tenha conseguido matar e consumir a serpente, a interação pode ter ocorrido em circunstâncias específicas.
“A serpente poderia estar debilitada, recém-alimentada ou ter sido surpreendida. Portanto, eu não interpretaria um caso de predação de jiboia como uma ‘vantagem’ do cangambá sobre a serpente, mas como uma interação excepcional que precisa ser analisada considerando o tamanho e a condição dos dois animais”, conta. Cangambá scott_young/iNaturalist Karina Banci também destaca que não encontrou registros ou dados publicados na literatura científica especificamente sobre cangambás predando jiboias.
Existem evidências de que serpentes fazem parte da alimentação desses mamíferos, inclusive a partir de análises de fezes e conteúdo estomacal. Ainda assim, segundo a especialista, os cangambás conseguem predar uma jiboia adulta. O registro, portanto, pode representar uma situação real de predação, embora não seja possível determinar apenas pelas imagens se esse era o objetivo do animal ou se a interação ocorreu por outro motivo.
Uma jiboia de grande porte, portanto, está longe de ser uma presa típica do cangambá. Caso a serpente tenha sido realmente predada, o episódio deve ser visto como uma interação excepcional e oportunística. Curiosidade O cangambá ficou conhecido do grande público também pela presença marcante de animais semelhantes em filmes infantis, como Bambi e Os Sem-Floresta.
Por isso, é frequentemente associado ao “gambá preto e branco” que libera um odor desagradável quando está em perigo. Esse mecanismo é utilizado principalmente para autodefesa. O líquido de forte odor é produzido por glândulas localizadas próximas ao ânus e liberado quando o animal se sente ameaçado.
Segundo Gitana, a secreção possui compostos sulfurados extremamente desagradáveis e pode ser direcionada ao potencial agressor. A função é fazer com que um predador interrompa o ataque e possivelmente recue. *Sob supervisão de Rodrigo Peronti.



