Morte de Zélia Amador repercute nacionalmente e gera luto oficial em Belém Morreu nesta terça-feira (8), aos 76 anos, em Belém, a professora, pesquisadora e ativista Zélia Amador de Deus. Ela passou mal à tarde, foi levada a um hospital e não resistiu. A família não informou a causa da morte.
O velório ocorre no teatro Waldemar Henrique nesta quarta (9). O governo do Pará e a Universidade Federal do Pará (UFPA) decretaram luto de três dias. Do Marajó a Belém Zélia Amador foi professora de artes da UFPA e co-fundadora do Centro de Estudos e Defesa do Negro no Pará (Cedenpa).) Taymã Carneiro / g1 Pará Zélia nasceu em 24 de outubro de 1949, em uma fazenda no arquipélago paraense do Marajó, filha de Doralice Amador, que, na época, tinha apenas 15 anos e trabalhava como empregada doméstica.
Ainda no primeiro ano de vida, foi morar em Belém, onde foi criada pelos avós, no bairro da Sacramenta. "Na verdade eu me safei pela educação. Lembro muito bem da minha avó me dizendo 'tu és preta, mas não baixa tua cabeça'", contou ao g1 em 2018.
Carreira acadêmica Zélia Amador de Deus Ascom/UFPA Aluna de escolas públicas, Zélia chegou a dar aulas para colegas em troca de dinheiro para pagar as passagens de ônibus. Em 1971, passou no vestibular para o curso de letras da UFPA, no mesmo ano em que também foi selecionada para o curso de formação de atores da Escola de Teatro da universidade.
Zélia se formou em 1974 e seguiu na pós-graduação: especialização em teoria literária, mestrado em estudos literários pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com pesquisa sobre o escritor paraense Dalcídio Jurandir, e doutorado em ciências sociais pela UFPA, defendido em 2008. A arte e o teatro na vida de Zélia Antes da universidade, porém, veio o palco.
Como atriz, Zélia interpretou Catirina em "O Coronel de Macambira", papel que lhe rendeu o prêmio de melhor atriz no Festival Nacional de Teatro de Estudantes, em Goiânia. Em 1976, ajudou a fundar a Companhia de Teatro Cena Aberta, um dos principais grupos de Belém dos anos 1970 e 1980, com peças engajadas que viviam sob a vigilância da censura da ditadura militar. Em 1978, voltou à UFPA como professora, na área de artes.
De 1989 a 1993, a paraense dirigiu o Centro de Letras e Artes. Zélia se tornou a primeira pessoa negra a ocupar o cargo de vice-reitora da UFPA, em 1993. A gestão dela seguiu até 1997.
A professora também idealizou o Auto do Círio, projeto de extensão que se tornou uma das tradições culturais da universidade. Em 2016, ela se tornou a primeira assessora de Diversidade e Inclusão Social da UFPA, função que depois deu origem à Superintendência de Políticas Afirmativas e Diversidade (Diverse).
Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará Em 1980, Zélia esteve entre as fundadoras do Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará (Cedenpa), organização que se tornou referência do movimento negro na Amazônia. "A partir desse contexto do início dos anos 80 que o movimento começa a não somente denunciar o racismo, mas pensar políticas públicas de ação afirmativa, a fim de tentar diminuir as desigualdades", disse ao g1.
A atuação da entidade ajudou a garantir na Constituição do Pará o reconhecimento das terras de comunidades quilombolas e medidas compensatórias para pessoas discriminadas no mercado de trabalho. Zélia também participou da formação da Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos (SDDH), no fim dos anos 1970, e fundou, na UFPA, o Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros (NEAB) e o Grupo de Estudos Afro-Amazônicos (GEAM). Presidiu ainda a Associação Brasileira de Pesquisadores Negros (ABPN).
Cotas e atuação internacional Universidade Federal do Pará UFPA A defesa das ações afirmativas se tornou um dos principais eixos da trajetória da paraense. Em 2001, Zélia esteve entre os representantes do Brasil na chamada "Conferência Mundial contra o Racismo", em Durban, na África do Sul, onde foi uma das oradoras da delegação. "Éramos um grupo forte, articulado, que retorna ao Brasil para cobrar diversas políticas, entre elas o sistema de cotas nas universidades públicas", lembrou.
A mobilização ajudou a preparar a lei de cotas (12.711/2012) e a reserva de vagas na UFPA para pretos, pardos e indígenas. No plano nacional, foi membro do Grupo Interministerial de Valorização da População Negra e coordenadora do Programa de Ação Afirmativa do Ministério do Desenvolvimento Agrário (2001 a 2003), além de conselheira do Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial (CNPIR).
Homenagens e legado Em agosto de 2026, Zélia foi homenageada com a plantação de um baobá na UFPA UFPA Em 2019, a UFPA aprovou, por unanimidade, a concessão do título de professora emérita. Zélia foi a primeira mulher negra a receber a honraria na universidade. A cerimônia ocorreu em março de 2020.
Ela também recebeu o título de doutora honoris causa pela Universidade do Estado do Pará (UEPA). Em 2021, foi homenageada com o Prêmio de Direitos Humanos da BrazilFoundation, em cerimônia em Nova York. No mesmo ano, a história dela virou o documentário "Amador, Zélia".
Menos de um mês antes de morrer, em 18 de agosto, Zélia participou do plantio de um baobá em sua homenagem no campus Guamá da UFPA. "Esse baobá representa muito para mim, porque fala de ancestralidade, de memória e daqueles que vieram antes de nós. Estou muito emocionada e só tenho a agradecer por esta homenagem", afirmou na ocasião.
O Ministério da Igualdade Racial publicou nota de pesar: "Referência ancestral para o Brasil, Zélia Amador deixa um legado de resistência, produção de conhecimento e compromisso com a transformação social." VÍDEOS com as principais notícias do Pará Acesse outras notícias do estado no g1 Pará.



